terça-feira, 4 de novembro de 2008

Cada instante é um flash!

Hoje em dia, com as câmeras digitais, os celulares que fotografam e enviam fotos, as webcams, os e-mail´s, os notebooks com blue tooth, e todas essas ferramentas da alta tecnologia, ficou muito fácil o registro e o compartilhamento dos momentos que as pessoas acreditam ser interessantes.
Após registrar tudo o que se passa ao seu redor, os cidadãos modernos avidamente correm para compartilhar tais instantâneos com todos aqueles seus “1898 amigos” do Orkut ou comunidades equivalentes.
É como se as pessoas só vivessem naqueles instantes imortalizados pelas lentes e expostos ao mundo via web. A vida já não pode ser apenas vivida, precisa também ser transmitida e comentada. O que não está na Internet não está no mundo. Já não importa tanto viver momentos felizes de verdade, basta parecer que os momentos vividos são felizes. Em muitos casos, talvez só haja felicidade fabricada durante o espocar dos flashes. É tudo pose, como já dizia Lobão.
Após eternizar os momentos “sublimes” e “felizes” compulsivamente, a segunda etapa é publicá-los o máximo possível nos canais atuais de relacionamento instantâneo.
E haja fotos do aniversário do bebê, da última balada, do último show, do churrasco na casa do Marcão, da festinha surpresa no escritório (mesmo que recheada de falsidades), etc. Fotos legendadas: “Meu amorzão”, “A coisa mais linda da mamãe”, “Amor eterno”, “amigos para sempre” e outras inscrições que só dizem respeito estritamente ao círculo de amizade ou familiar daquele indivíduo, expostas ao mundo todo.
A quem - excetuando as pessoas que realmente nos amam - podem interessar as fotos do nosso Totó fazendo cocô na casa da vovó?
Neste mundo de “instant celebrities” e BBB´s em que vivemos, todos querem se ver, se mostrar, se documentar. Cada movimento é um flash.
Basta irmos a um show musical para nos depararmos com centenas de pessoas se acotovelando para pegar os melhores ângulos do artista. Mas isso dura o show todo. Às vezes eu me pergunto se certas pessoas prestam atenção às músicas, ou apenas fotografam cada segundo do espetáculo.
Que saudades dos antigos álbuns de fotografias, organizados por evento, cronologicamente, sem grandes possibilidades de farta distribuição, até porque as cópias não eram exatamente baratas e acessíveis. As fotos ficavam boas dependendo do fotógrafo e das variáveis envolvidas. Sempre havia a possibilidade de não prestarem, mas quando prestavam era aquela alegria.
Pode até ser saudosismo meu, mas não vejo grande vantagem em toda essa agilidade atual.
Tira-se uma foto digital atrás da outra na ânsia de se mostrar vivo. Viramos paparazzis de nós mesmos. Alguém tem que registrar meus momentos, mesmo que seja eu. Talvez hoje o que importa não seja ser realmente feliz, mas sim parecer feliz. E, é claro, é necessário que o mundo todo veja isso.
A tecnologia deve nos servir sempre que precisarmos, jamais nos escravizar.
O melhor lugar para armazenarmos a felicidade real é em nossa própria memória, e tenham certeza, os momentos verdadeiramente felizes e os amigos realmente sinceros sempre estarão lá, eternizados por toda a vida!

9 comentários:

Nando disse...

Altamir,
Concordo em relação ao exagero que se vê por aí.
Mas, pondero, nós somos finitos, e com a gente se vão as imagens de nossas lembranças.
Tenho uma única foto com minha avó paterna, dos outros avós nenhuma. Meu avô paterno morreu em 1954, bem antes de eu nascer. Lembro de ter visto uma única foto dele, há muitos anos, e jamais esqueci a figura.
Falo deles a meus filhos, e sinto falta de imagens que ajudem.
Então, exageros e bizarrices à parte, "uma imagem vale por mil palavras".
Abraço!

Flávia B. disse...

Aaaaah, tenho uma história pra contar sobre isso!! Como agora tá meio corrido por aqui, me contento em te deixar um beijo, mas volto mais tarde pra contar tintim por tintim o meu 'causo'.

Beijo!

Flávia B. disse...

Voltando.

Bom, eu confesso que adoro fotografias (coisa que não é muito difícil de adivinhar, dada aquela foto GIGA que serve de fundo pro meeu blog) e que dificilmente saio de casa sem uma câmera na mão. Mas a explicação disso, no meu caso, não está em eternizar os momentos felizes, mas em eternizar os MOMENTOS, simplesmente - coisa da minha natureza nostálgica. E apesar dessa paixão por imagens, poucas dessas fotos são minhas já que geralmente sou a fotógrafa :)

Bom, mas não era isso que eu queria contar, mas um 'causo' que aconteceu comigo na época da faculdade por conta dessa facilidade de capturar imagens e disponibilizá-las na internet. Como as despesas com o curso não eram lá muito baratas e eu não podia arrumar um emprego convencional (porque o curso de medicina é em horário integral), me virava como podia: dava aulas particulares, fazia trabalhos acadêmicos e, como era bonitinha, simpática e bem articulada, sempre me chamavam pra atuar como recepcionista em eventos. E nesses eventos sempre há fotos, muitas fotos. E como é muita, muita gente, nem dá pra saber quem te fotografou ali. O fato é que fui parar num desses sites que publicam imagens de festas badaladas como NAMORADA de um fulano que nunca tinha visto na vida... e eu realmente namorava, só que outro cara! Dessa vez tive como tirar a foto do ar, mas já pensou? Quase perco o namorado por causa disso...

Enfim, resumindo (se é que dá pra resumir alguma coisa depois desse comentário enoooorme), é legal isso de fotografia. É a tecnologia a serviço das boas memórias. O que não é legal (em todos os sentidos) é a apropriação e disponibilização da imagem alheia como se fosse domínio público e essa vulgarização da vida pessoal nos sites de relacionamento que pululam na net. Isso me assusta.

Beijos!

P.S.: sabe o que foi que apareceu pra mim aqui na sua verificação de palavras? DANCE :)

Jú Carvalho disse...

Sabe de uma coisa?
Acho q meus filhos lerão esse texto numa aula de antropologia.
Muito boa sua análise, completa, coerente, verdadeira
E qm sou eu pra analisar algo tão bom? hahahaha
Ah, sim eu sou apenas mais uma auto-vítima de narcisismo e momentos aparentemente felizes xD!

minicontosperversos disse...
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minicontosperversos disse...
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Altamir disse...

Desculpe, Gustavão, acabei removendo os dois coments!

luiz medrano disse...

O que acho interessante nesse papo todo é que o despertar da memória provocada pela fotografia digital tem sua temporalidade abreviada da mesma forma que ela acontece. Logo após o click, não há mais o momento da espera de dias para rever os momentos registrados, pois a foto é checada brevemente ali no locol, segundos após o fato, e o mais triste é que se por acasos momentos a frente a memória da máquina ficar cheia, o fotografo vai lofo deletando-as. Que relação estranha é eesa que construimos com a foto, pois o que era suporte para a memória começa a ser suporte para o descarte da memória, na fragilidade eletronica e na imensidão do abismo virtual.

Anônimo disse...

necessario verificar:)

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