quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Aí vai o meu cestão de Natal para vocês

Nesta época de muitos jingle bells, além de muitas ladainhas e tradições repetidas quase à exaustão, aproveito o ensejo para enviar a todos os incautos, que ainda se arriscam por estas paragens, os meus mais sinceros votos de muita e plena saúde por toda a vida. É claro que estendo os votos aos vossos amigos, parentes, enfim, a todos aqueles que vocês conheçam e considerem.
Acho que saúde é o maior e mais precioso bem que podemos desejar sinceramente a alguém, pois é o pressuposto básico para que busquemos e consigamos atingir todas as nossas metas pessoais. Muito embora sejamos bombardeados por infinitas necessidades criadas para nós a todo o momento, e muitos achem que não podem viver sem tais novidades, sejam lá quais forem, isso é pura ilusão. Nada na vida é importante sem saúde. Como dizia o bordão, saúde é o que interessa... o resto não tem pressa!
Acho também muito importante lembrar e celebrar o grande aniversariante do dia 25 de Dezembro. Na minha concepção, talvez o maior, melhor e mais completo ser humano que já passou por este planeta. Isso sem a menor demagogia religiosa, pois não sou adepto fervoroso de nenhuma religião, apenas valorizo Jesus Cristo como o homem que mais ensinamentos deixou neste mundo e o que mais fez por todos nós. ELE sim, completamente digno de ser seguido, e de ter as suas ações e palavras levadas por todos aos quatro cantos do mundo.
Por outro lado, infelizmente, tenho certeza de que, neste período natalino, considerável parcela da população brasileira estará muito longe de amigos secretos, lembranças, presentes, árvores de Natal e festas de confraternização. Receberão apenas e tão somente um singelo cestão de final de ano... cestão fudidos!
Se pararmos para pensar, são essas pessoas que precisam sim de bens materiais neste final de ano. Não nós, pessoas com acesso à Internet e a toda essa tecnologia. Nós já temos tudo o que precisamos para uma vida digna, e em muitos casos, até mais do que merecemos. Seria muito interessante que todos nós passássemos a pensar e a agir para minimizar as enormes diferenças sociais existentes no Brasil. Mas isso durante todos os meses, e não só no período de festas.
Feliz Natal e excelente 2010 para todos, mas todos mesmo! São meus sinceros votos!

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Programa Hipocrisia Zero

Um dos meus lemas neste blog é a busca incessante e insana pela hipocrisia zero. No entanto, muitos podem não compreender exatamente o que este doidivanas que vos fala pretende com esse inalcançável objetivo. Uma vez que é sabidamente inalcançável, para que se desgastar com essa luta inglória?

Vou procurar esclarecer. É claro que, adulto e vivido que sou, sei que jamais iremos deixar de conviver com a hipocrisia neste mundo em que por hora habitamos.

Sei que muitos vão dizer que a hipocrisia é inerente ao ser humano. Que faz parte da vida moderna. Que sem uma boa dose de hipocrisia não se vive, etc. etc.

Apesar de saber e vivenciar tudo isso, sou um cara chato, que, paradoxalmente, na medida em que foi envelhecendo, foi ficando com a tolerância cada vez mais baixa para a mentira e a desfaçatez humana.

Por tudo isso, acredito fortemente que temos condições, sim, de reduzir as emissões de hipocrisia no nosso meio ambiente.

Eu nem falo de política, meio em que a hipocrisia nada de braçada e já começa a se estabelecer (pasmem!) como o padrão de conduta aceitável e esperado de todos os políticos.

É lamentável chegarmos à conclusão de que elegemos os políticos para que - no mínimo e na melhor das hipóteses – venham a enganar e iludir todo o seu eleitorado.

No dia a dia, temos visto, presenciado e sofrido muito com as doses cavalares de hipocrisia que andam por aí. O puxa-saquismo desenfreado. A ultra-valorização das pessoas, empresas e instituições que detêm o poder econômico e político nos seus respectivos campos de atuação. A bajulação desmedida daqueles que supostamente - nesse nosso mundo tão equivocado – valem ou representam mais que os outros.

Não vejo, sinceramente, nenhum sentido em colocarmos seres humanos em patamares diferentes de importância, por mais que isso seja a moeda corrente que nos impinjam hoje em dia. Nada, no meu entender, justifica que uma pessoa seja tratada ou tenha mais privilégios do que outra.

Luto, isto sim, para que todos, absolutamente todos, sejam tratados com respeito e civilidade, independentemente da posição que estejam ocupando em nossa sociedade.

Entendo que a verdade, a sinceridade e o respeito mútuo devam pautar toda e qualquer relação em que estejamos envolvidos, seja ela sentimental, profissional, familiar, comercial e, claro, por último, mas não menos importante, no exercício da nossa cada vez mais combalida cidadania.

Apesar de ingênua, e admito isso, a minha luta também é para que tenhamos cada vez mais relações e contatos em que a mentira, a desfaçatez e a falsidade deixem de pairar, onipresentes. Que tenhamos o direito de não gostarmos e de não termos afeição por determinadas pessoas, mas que isso possa ser colocado e vivido, sem maiores traumas, e que apesar das antipatias e reservas, mantenhamos relacionamentos justos e imparciais com elas.

Acho lindas as manifestações de carinho e apreço pelos amigos de verdade. Porém, considero que as homenagens devam ser sempre verdadeiras e sinceras. Jamais vocês me verão elogiando ou enaltecendo pessoas a quem não julgo verdadeiramente merecedoras de tais honras. Os meus grandes amigos e ídolos trato com carinho, respeito, justiça, amor e amizade. Os meus colegas e pessoas menos queridas, trato com respeito e justiça. Simples assim.

Tenho certeza de que todos viveremos infinitamente melhor num mundo menos hipócrita e mais sincero. Precisamos resgatar as crianças que temos dentro de nós. Elas são mestras na arte de viver com verdade e sem hipocrisia.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Quero dar panetones para todos!

Não sei porque, mas nesse final de ano fiquei com o espírito solidário mais aflorado e resolvi que vou arrecadar todos os fundos que conseguir para gastar tudo em panetones e sair distribuindo para todos os milhões de carentes do Brasil!
Como sou muito tímido e reservado, não vou querer alardear as minhas intenções para ninguém! Vou embolsar tudo o que puder em nome de uma causa nobre e digna: repartir o santo panetone de final de ano.

Confidenciei a um grande amigo as minhas ideias solidárias e ele prontamente tentou me demover delas. "Podem interpretar mal". Afirmou ele. "Além disso", perguntou, "já imaginou se algum espírito de porco resolve gravar ou filmar as entregas de dinheiro dos colaboradores? Como você vai se explicar? No mundo-cão em que vivemos, a última coisa que as pessoas vão achar é que você está arrecadando fundos à sorrelfa para ajudar os mais necessitados! Pense bem. Você vai auferir boladas em dinheiro vivo. Como vai disfarçar esse dinheiro? Vai guardar na cueca, nas meias, aonde mais, criatura?"

Diante das questões pertinentes do meu amigo, refreei um pouco o meu espírito natalino. É verdade. Se alguém mal-intencionado, algum desafeto, perceber a minha movimentação suspeita durante a arrecadação, pode fazer falsas ilações e tentar registrar o suposto caixa 2 para posteriormente me comprometer com as autoridades e com a imprensa.

Como é difícil ser solidário no Brasil. A gente quer ajudar, mas as pessoas são muito maldosas. Veem más intenções em tudo e em todos. Mas, puxa vida, quantos panetones eu conseguria distribuir se obtivesse doações da ordem de R$ 500 mil, 1 milhão? Seria panetone pra dedéu! Muita gente humilde talvez ficasse até com indigestão de tanto panetone. Ah, e se sobrasse algum, acho que os irmãos da igreja não se incomodariam se eu também fizesse uma linda ceia para o povo, quer dizer, o povo lá de casa, que ninguém é de ferro, né?

Além do mais, em último caso, se registrarem qualquer movimento meu que os outros possam achar suspeito, tenho ainda a possibilidade de alegar que o gravador ou que a filmadora estão apresentando os registros truncados e que aquilo não é exatamente o que parece ser. Pra tudo tem um jeito na vida, menos pra morte.

Quer saber? Ninguém me segura! Vou arrecadar bufunfa dos empresários até dizer chega! Vou abarrotar todo o meu terno, minhas meias, minhas cuecas e o escambau! Este ano estou solidário demais! Quero me arrebentar de distribuir panetones aos pobres! A solidariedade franca e desinteressada não pode ser cerceada por temores mesquinhos. A esperança precisa vencer o medo. Fui!

sábado, 21 de novembro de 2009

A total dependência do automóvel

Nos dias atuais, ouvimos falar o tempo todo de sustentabilidade, preservação do meio ambiente, diminuição da poluição, reciclagem dos resíduos, economia de água potável, e uma série de tantos outros mantras ecologicamente corretos, cantados em todos os lugares, como uma incessante ladainha.

No entanto, a maioria esmagadora dessas pessoas, que vivem dando lição de moral em todo mundo, jamais deixa de usar seus automóveis por um instante que seja. Se precisam ir à padaria, a duas quadras de casa, vão de carro. Se precisam ir pegar o filho na escola, a um quilômetro de casa, vão de carro. Existem pessoas (quase todas) completamente dependentes do carro para viver, como se este fosse uma extensão do próprio corpo. Mesmo com um trânsito cada dia mais caótico e estressante, poucos são os lúcidos e corajosos que buscam alternativas para a prisão sobre quatro rodas.
uitos reclamam dos males causados pelo sedentarismo, mas jamais se dispõem a caminhar um pouco mais. Pouquíssimos utilizam bicicletas, até porque ainda faltam ciclovias e condições seguras de tráfego para elas. Mas ninguém está muito preocupado em criar ou lutar para melhorar tais condições. É muito comum ouvirmos as pessoas falarem no dia a dia que não conseguem fazer nada sem carro, que o veículo é imprescindível na vida urbana moderna, que o sistema público de transportes não funciona. Podem até ter certa razão, dependendo da situação, mas, mesmo assim, existe muito exagero e muito comodismo por trás dessas afirmações corriqueiras.

Poucos se dispõem a levantar a bunda da cadeira e caminhar, pelo menos na hora do almoço. Reclamam do calor, do frio, da chuva... Tudo é motivo para o sujeito se aboletar no seu auto e deixar de queimar pelo menos alguns gramas de gordura trans. Sem contar o rodízio paulistano, que é motivo para que muitas pessoas deem um jeito de alterar toda a rotina do dia da semana em que há restrição para o uso do seu automóvel. Ficou muito comum escutar as pessoas falando que não podem fazer tal coisa tal dia porque é o dia do rodízio. Ou seja, tudo em função do carro. A vida em função do carro.

Isso tudo, voltando ao início do deste post, sem falar nos enormes índices de CO2 lançados na atmosfera todos os dias pelos milhares de veículos que insistem em transitar, apesar de tantas adversidades e problemas que o tráfego pesadíssimo tem causado às cidades e às pessoas.

O fato é que vivemos, isto sim, apesar de tantos blablablás pretensamente conscientes e engajados, na era do automóvel. É em volta dele que a economia gira. É para ele que a maioria das obras são projetadas e, finalmente, é para conseguir alcançá-lo, que a maioria do povo trabalha. E haja propaganda de lançamento de veículos! Em uma delas até já estão fazendo a pergunta (Muito pertinente por sinal): Mas para que um carro tão possante se há tanto trânsito nas grandes cidades? E a resposta: Porque uma hora o semáforo abre! (Só não sabemos se mesmo com ele aberto vai ser possível andar, mas tudo bem...)

Falam tanto da poluição causada pelo tráfego, do iminente fim das fontes de petróleo, mas jamais cogitam em tirar o automóvel do centro das atenções do nosso mundo cada vez mais globalizado.

É de se perguntar: Será que só sabemos viver individualmente sobre quatro rodas? Será que não existem outras boas e dignas opções de transporte? Seríamos nós realmente animais motorizados?
Estaríamos todos condenados a viver todos os dias as agruras e sofrimentos causados pelo desumano e insuportável trânsito das grandes cidades?

Não sei as respostas para todas essas perguntas, mas, além da começar a fazê-las, acho sinceramente que é papel de nós todos tentar também respondê-las. Eu estou sem carro há anos. Utilizo transporte público todos os dias e caminho bastante para fazer minhas coisas cotidianas. Até o momento não fiquei doente nem enfrentei grandes problemas por causa dessa opção. Além do mais, nas cidades maiores, quando necessário, sempre há um táxi logo à mão para nos servir. Tudo é uma questão de adaptação e uso racional dos recursos e possibilidades disponíveis. Além de abandonar a maldita ideia de que o carro traz status e glamour para os seus proprietários. Foi-se o tempo. Hoje em dia qualquer um compra um carro zero em 96 prestações e se encalacra todo para pagá-lo. Mas, mesmo assim, pode dizer e mostrar para todos que tem um carro.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Dos tempos do politicamente incorreto

Dependendo do ponto de vista, quinze anos podem não ser assim tanto tempo. Porém, para algumas coisas, tudo muda muito em quinze anos.
Nos idos de 94, o Rollinbund trabalhava em uma empresa municipal de São Paulo, mais especificamente naquela que cuida do trânsito dessa caótica cidade. O trânsito, já naquela década, era completamente enlouquecedor. De lá pra cá, só fez piorar sensivelmente.
Contudo, não são exatamente as atividades-fins daquela empresa que pretendo relembrar, até porque o nosso herói trabalhava num setor que poderia perfeitamente se enquadrar como atividade-meio, o famigerado Setor de Compras e Licitações.
Rollinbund foi alçado àquele Setor através de um concurso interno, no qual obteve o primeiro lugar sem grande esforço. Imagine só o nível dos outros cerca de quarenta candidatos. Muito sofrível, certamente.
Pois bem, classificado no certame, foi notificado de que começaria no Setor de Compras, atuando como comprador, já na próxima semana.
Ao chegar ao local de trabalho, percebeu, à primeira vista, que a sala mais se assemelhava a um hospício do que propriamente a um departamento ou seção.
Em tempos em que o politicamente correto ainda não tinha dominado todas as empresas e todos os ambientes corporativos, aquele setor poderia ser considerado como remanescente dos anos setenta, dada a precariedade, tanto de material humano, quanto de equipamentos, com que ali se trabalhava. Parecia que o lugar estava parado no tempo há pelo menos duas décadas. Só para que os leitores tenham uma ideia do atraso, os métodos de trabalho, se é que eram métodos, ainda incluíam o uso do praticamente extinto, já naquela altura, Telex. Havia duas máquinas de datilografia eletrônicas IBM, mas a maioria dos funcionários ainda martelava velhas Olivettis mecânicas. Aparelho de fax, apenas um, para dar conta das demandas de seis compradores e todas as cotações feitas por eles. Os preenchimentos dos formulários eram manuais, com carbono, uma verdadeira ode ao atraso e à antiguidade.
Mas, afora o atraso tecnológico, o que mais assustava era o comportamento politicamente incorreto dos funcionários. Cerca de quinze pessoas, a maioria sem noção ou preparo, que se amontoavam naquela sala, fazendo de suas mesas de trabalho os seus respectivos feudos, achando que mandavam nos seus exíguos territórios, sem se importar com os vizinhos que se espremiam por todos os lados, mantendo distâncias máximas de um metro uns dos outros, fosse na frente, do lado ou atrás. Uma verdadeira balbúrdia cotidiana.
E o pior não era isso. Em tempos de menos preocupação com a saúde o o bem-estar, a maioria das pessoas que ali trabalhavam era de fumantes inveterados. Verdadeiras chaminés.
Por outro lado, nos dias de calor, havia duas facções que praticamente se engalfinhavam pelo controle do único aparelho de ar condicionado que havia para todos. É claro que nunca existia unanimidade. Alguns queriam ligar o ar, enquanto outros achavam que a sala ficava fria demais. E era esse tormento o dia todo. Uns iam lá e ligavam. Outros, aproveitavam o descuido dos primeiros e desligavam. Quem ligou o ar? Quem desligou o ar?
Agora, imaginem a situação: Cerca de dez pessoas fumando e a sala com todas as janelas fechadas devido ao uso do ar condicionado. O recinto vivia empesteado. Até o Rollinbund, que nunca fumou, consumia pelo menos um maço por dia de Continental sem filtro nessa época.
Em certos momentos, ao entrar repentinamente na sala, parecia que estávamos entrando numa taberna ou num pub londrino. Ao abrir a porta, a nuvem se espalhava pelo lado de fora.
Mas isso ainda não era o auge da falta de noção. Pelo menos metade da sala consumia suas marmitas na própria mesa de trabalho. E os cardápios não eram exatamente os mais leves. Macarronada com muito queijo parmesão, sardinhas fritas, filés de pescada e feijoada eram pratos recorrentes. Imaginem o aroma do local em meio a tanto fumacê, tantos pratos condimentados e tanta gente junta.
Outro quesito complicado era o local do cafezinho. Por falta de jeito e traquejo, eles faziam de um arquivo de aço cinza o suporte para a bandeja do café, do chá e do açúcar (Adoçante? Nem pensar!). Como não eram muito jeitosos, derrubavam café e chá por todo lado e emporcalhavam tudo com açúcar. As laterais e a frente do arquivo ficavam impregnadas e grudentas daqueles respingos. Em algumas vezes podíamos ver o café escorrendo pelo aço daquele móvel e chegando até o chão. Era porcaria para todo lado.
Diante desse quadro dantesco, imaginem a produtividade e a eficiência daquele setor. Já dá para ter uma ideia de que nada funcionava muito bem, não?
Os formulários eram datilografados com erros absurdos de ortografia. Trabalhavam sem nenhuma atenção. Alguns pedidos de compra precisavam ser refeitos umas cinco vezes. Gritavam a plenos pulmões de um lado ao outro da sala, não dando a mínima para os outros colegas que muitas vezes estavam ao telefone, efetuando cotações de preços e contatos com fornecedores. Era a barbárie.
Com o tempo vieram os conceitos de qualidade total e a lei que proíbe fumar em prédios públicos. Chegaram os computadores e iniciou-se um processo de reciclagem dos funcionários. Hoje em dia, me informam os colegas que lá ficaram, o setor é dividido em estações de trabalho e ninguém pode fazer a refeição nas suas próprias mesas. Tudo ficou mais eficiente e organizado, mas muito longe de conservar a graça e a espontaneidade daqueles famigerados tempos.

sábado, 31 de outubro de 2009

Tráfico X Consumo

As drogas são traficadas, processadas e vendidas em grande escala porque tem muitos consumidores, ou tem muitos consumidores porque são traficadas, processadas e vendidas em grande escala?
Assisti nesta semana a uma reportagem televisiva que, com câmera escondida, mostrava o comércio de drogas em uma das ruas da conhecida cracolândia paulistana.
Eram meninos e pessoas vivendo em situação de rua vendendo a droga para os usuários da classe média, ou média alta, que paravam seus carros junto a eles, compravam e iam embora.
Ao final da reportagem, um policial informava que efetuavam muitas prisões naquela área, mas que não adiantava, pois prendiam alguns e apareciam muitos outros para continuar o comércio.
O que não entendi foi a falta preocupação dele - e isso se estende a muitos outros setores da nossa sociedade - com aqueles consumidores. Qual a importância e a responsabilidade daquelas pessoas supostamente ditas de bem em relação àquela triste situação?
Os meninos seriam aliciados pelo tráfico e iriam se colocar naquele tipo de situação de altíssimo risco se não houvesse tamanha demanda para o "valioso" produto que comercializam?
São impressionantes a hipocrisia e a desfaçatez com que a sociedade dita organizada trata essa questão do tráfico e consumo de drogas. Os traficantes e a marginalidade que se encarregam da produção e da distribuição são o demônio aqui na Terra, mas os filhinhos dos abastados que consomem as drogas avidamente são apenas jovens querendo se divertir!
Tem alguma coisa que não fecha nessa equação social. Vamos combater o tráfico sim. Mas combater o tráfico também passa pela conscientização e chamada à realidade de grande parcela tida como decente e honesta da nossa sociedade.
Tem sido muito frequentes nos últimos anos, os familiares e amigos chorarem a morte de parentes, principalmente jovens, mortos em decorrência da violência urbana. Será que basta chorar e protestar contra os marginais apenas nos momentos de tragédias?
Será que essa mesma parcela da sociedade que se indigna a cada acontecimento trágico que chega à sua porta não precisaria também rever o comportamento dos seus integrantes nos supostos momentos de felicidade e normalidade?
Só é monstruoso aquilo que é feito por traficantes ou policiais corruptos? Mas o que nós, da sociedade "decente" temos feito para evitar todo esse caos social? Nossos filhos e amigos nas baladas, consumindo toda o tipo de droga não é algo para se preocupar?
A droga só é perniciosa quando está sendo produzida e distribuída nas favelas e bocas de fumo? Por acaso, quando chega às mãos das patricinhas e mauricinhos ela se torna pó de pirlimpimpim?
É muito cômodo distorcer os fatos em nosso favor, tapar o Sol com a peneira e achar que maus são os outros. Precisamos, enquanto classe mérdia, refletir um pouco mais sobre tudo isso.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Sifu Cards - Você não precisa deles

Para viver a vida plena e humanamente, existe você, sua alma, seu corpo, seu cérebro e seus sentimentos. Para todas as outras coisas, existe o Sifu Card.
O Sifu Card preenche todas as necessidades que ele mesmo criou para você. O Sifu Card permite que você parcele as aquisições de coisas de que talvez nem precise em até 48 vezes, mas, claro, com juros exorbitantes, que irão deixá-lo endividado por um longo período. Com certeza, por muito mais tempo do que vai durar aquele bem que o Sifu Card está gentilmente financiando para você neste momento.
As ofertas tentadoras para o endividamento e total enforcamento do consumidor chegam pelo correio, pelo telefone, pela Internet e pela televisão. O cidadão está sempre às voltas com ofertas imperdíveis de bancos, créditos consignados, cartões de crédito, telefonia celular, serviços de banda larga e TV a cabo, além dos supercrediários dos magazines, supermercados e lojas de departamentos.
Quando avançam como aves de rapina sobre os parcos rendimentos dos aposentados do INSS, chega a ser um crime, que deveria ser previsto no código penal. Cadeia para esses salafrários que se valem da ingenuidade dos idosos para metê-los em enrascadas financeiras e abocanhar a sua modesta renda.
São tantas e tão bondosas as ofertas, que a maioria das pessoas sucumbe a tantos apelos comerciais. Os bancos vivem mandando presentes de grego para os correntistas. São supercartões, com múltiplas capacidades e facilidades. No entanto, só não deixam claro que aqueles cartões passarão a valer automaticamente caso o incauto “beneficiário” não tome a providência de se manifestar expressamente de que não deseja mais aquela “enorme benesse” em sua já complicada vida financeira, normalmente já repleta de bolas-de-neve de dívidas e juros que só fazem crescer.
Ou seja, os bancos oferecem produtos que só vão onerar ainda mais o cliente, fazendo-o pagar anuidades e taxas, tudo em troca de uma suposta facilidade para obtenção de mais crediários e parcelamentos.
Na verdade, os Sifu Cards e os bancos não estão nem aí para a saúde financeira, nem para atender as verdadeiras necessidades de alguém. Eles querem é que você se enrole todo com eles, para depois fazer acordos de parcelamento de dívidas, que sempre saem muito caros para o usuário usurpado.
Outro capítulo à parte das necessidades criadas pelo mercado são as empresas de telefonia móvel e suas ofertas espetaculares. Às vezes, tenho a impressão, dadas as muitas possibilidades de ganhos propostos por elas aos usuários, que hoje em dia basta adquirir um celular para a sua vida mudar completamente. São bônus intermináveis, minutos livres para falar, números livres, prêmios como carros, casas e até boladas de dinheiro. Ou seja, a aquisição de um celular resolve por completo a vida do comprador.
Empresas como a Morto, a Ai, a Escuro e a Toim oferecem tudo de bom aos seus clientes. São tão boas, que fica realmente difícil escolher entre uma dessas operadoras. Por isso que já existe muita gente com vários celulares, de múltiplas operadoras. Assim não perdem nenhuma das suas generosas promoções.
Eu, particularmente, só sei que os créditos do meu celular acabam num piscar de olhos. Jamais me senti levando algum tipo de vantagem nesse serviço. Devemos sempre desconfiar das esmolas boas demais. Até os santos desconfiam. Além do mais, existe um ditado econômico que afirma que não existe almoço grátis. Alguém sempre paga por ele. E por tantas promoções imperdíveis da telefonia móvel, quem será que paga? Tenho certeza de que não são as próprias operadoras.
As promoções de TV por assinatura e banda larga também são grandes enrascadas na maioria das vezes. A NOT TOMBO é a principal delas. Chamo de NOT porque só sabe dizer não aos nossos pedidos. Depois que assinamos o contrato, é um nabo atrás do outro, ou melhor, um tombo atrás do outro. É por isso que acabo de rescindir o meu contrato com essa empresa.
Estamos vivendo na selva do mercado. Querem nos empurrar de tudo. E de muitas dessas coisas nós nem precisamos.
E para um povo tão despreparado como o brasileiro, fica difícil resistir a todas essas “vantagens” da vida moderna. E haja orçamento estourado no final do mês e uso indiscriminado do limite do cheque especial.
Não é isso, definitivamente, que eu entendo por felicidade. Precisamos urgentemente reciclar as nossas atitudes consumistas e imediatistas. E eu não quero fazer o discurso tão batido ultimamente de salvação do planeta. Para mim, antes do planeta, precisamos salvar os cidadãos dessas “necessidades adquiridas na Sessão da Tarde”, como canta com tanta propriedade a Nação Zumbi.

Para vocês que conhecem pessoas endividadas, atoladas até o pescoço, e sem forças para sair dessa ciranda financeira destrutiva, dou a dica para que procurem os “Devedores Anônimos” em suas cidades. É uma irmandade nos moldes dos “Alcoólicos Anônimos”, que procura dar apoio e orientação para que os consumistas e devedores compulsivos saiam das dívidas e tornem mais saudáveis as suas vidas financeiras.
Todos nós podemos viver felizes sem tantos Sifu Cards. Cartão de crédito e débito deve apenas ser uma ferramenta que nos auxilie em nossas vidas corridas. E bastam poucos. Só precisamos refletir mais sobre isso. E divulgar isso.

PS: Post inspirado, entre outras coisas, pelo belo filme “Antes de Partir”, no qual Jack Nicholson e Morgan Freeman dão um show e nos mostram o que é realmente importante na vida.

Inspirado também na divertida animação “Wall-E”, que assisti com minha filha neste dia das crianças. É um filme que a maioria dos adultos precisa assistir, urgentemente.