domingo, 4 de outubro de 2009

Eu, eu mesmo, muitos anos depois

Este post sim, é baseado em fatos reais.
Neste domingo, após acordar da melhor maneira possível, se é que me entendem, saí para testar minhas novas palmilhas, receitada pelo ortopedista para tratar uma inflamação no tendão de Aquiles. A dor vinha incomodando nas caminhadas e corridas há mais de um ano, tendo piorado muito nos últimos dois meses. Já não conseguia mais correr sem passar os três dias posteriores mancando muito.
Há alguns dias, passei o meu aniversário ainda com dor, pois não havia recebido as palmilhas milagrosas. Não tinham ficado prontas. Completei meus 44 anos de maneira acabrunhada e macambúzia, pois me via impedido de praticar uma das atividades que mais me dão prazer e contribuem para manter o stress e a ansiedade sob controle.
Percebi, no começo da jornada, que as palmilhas realmente iriam cumprir o papel para o qual foram receitadas. A dor estava muito menor e a pisada muito mais correta e direcionada. Feliz da vida, agradeci muito a Deus pelo presente e fui embora. Primeira corrida de 40 minutos sem dor em muito tempo.
Aliado a isso, no meu som, tocava uma música do John Lennon, Starting Over, muito emblemática para mim, pois faz parte do último disco lançado pelo ex-Beatle, em 1980, poucos meses antes da sua morte trágica. Eu tinha 15 anos de idade, e foi naquele episódio que comecei a conhecer a história dos Beatles e, consequentemente, da música.
E vieram outras músicas, aleatoriamente, todas muito marcantes para mim, em diferentes épocas. L.A. Woman, do Doors, só que na versão do Billy Idol, outra música marcante. E várias outras.
Saudosismos à parte, o exercício mental e emocional que costumo fazer nesses momentos é comparar quem eu era naquela época com quem sou hoje.
A música me ajuda a trazer de volta, com mais facilidade e precisão, as expectativas e emoções das fases passadas. Assim, pude revisitar os meus sentimentos aos 15, aos 18, aos 25 e por aí afora.
Mas o que me deixa mais feliz em tais momentos é a constatação de que o homem de hoje, muito mais velho, com quase trinta anos a mais, é, de muitas formas, aquele mesmo menino de 1980, e isso me deixa muito satisfeito. Sinto que o encontro entre o homem de hoje e o menino de antes seria uma coisa muito natural, no qual ambos se entenderiam perfeitamente. Não me envergonho em nada do menino pobre, tímido e desajeitado que fui. Como tenho certeza de que ele também não renegaria ou condenaria de maneira alguma o homem que sou. Tenho muito orgulho de ainda ser a mesma pessoa de anos atrás. Tenho ainda todas as conexões com o menino de 15, o jovem de 20, o adulto de 28. Eu sou hoje a soma daquilo que eles todos produziram no passado. E me dou muito bem com todos eles. Jamais deixei de ser eu mesmo, apesar disso eventualmente não agradar a todas as pessoas. Impossível para qualquer um agradar a todos, nem Jesus Cristo conseguiu.
Outra boa sensação que as lembranças da meninice trouxe foi a renovação da ideia de cada vez mais colaborar, de todas as formas, por um mundo mais honesto, mais humano, menos egocêntrico. Esse ideal sempre me acompanhou, e em certos períodos de stress acentuado acaba ficando soterrado por tantas mazelas e atitudes mesquinhas com as quais temos convivido nos vários âmbitos da vida moderna.
É possível o cidadão passar dos quarenta e continuar vivendo intensamente todos os sonhos e expectativas de um mundo melhor que tinha na juventude. É possível. Há exceções para a velha máxima de que se deveria sempre desconfiar de alguém com mais de trinta anos. Tenho 44 anos e não me sinto um ser abjeto que abdicou de todos os seus princípios em busca apenas do conforto material e da realização pessoal. Tenho tentado conciliar, sempre que possível, a minha vida pessoal com a minha vida de cidadão. Esse blog, entre outras iniciativas, é a prova viva disso.
Agora sim, acho que passei pelo meu inferno astral. Esse ano ele só acabou depois do aniversário. Mas valeu muito à pena. Como tudo na vida.

10 comentários:

Luna Sanchez disse...

Puxa, esse texto tem uma serenidade tocante!

Quantas e quantas vezes já ouvi pessoas renegando o passado, usando a falta de experiência ou qualquer outro motivo para justificar erros, e sentindo vergonha do que um dia foram.

Acho que é uma bênção poder olhar para trás e constatar a própria evolução com alegria e sem afetação, desse jeito bacana que tu fez aqui, moço.

Um prazer te ler, e esse post fica entre os que mais gostei de ler no teu blog.

Dois beijos de domingo.

ℓυηα

Sweet Toxicant disse...

"It's time to spread our wings and fly/ Don't let another day go by, my love/ It'll be just like starting over - starting over"

Alta... viajei lendo seu texto... todas essas músicas que você mencionou eu adoro!

Sabe, acho que o homem atingiu a paz quando consegue fazer esse confronto de quem é com quem foi e sentir tranquilidade e segurança de estar no lugar no certo.. aceitar que está onde ele melhor pôde chegar. Que lindo isso! Parabenizo você por essa conquista/descoberta.

Grande beijo, e que você tenha um novo ano ainda mais feliz e pleno!

maria disse...

Já li e reli este seu texto diversas vezes. Tanta coisa pra falar mas as palavras me fogem. Faz assim: continua vivendo. Continua descobrindo coisas boas em você e no mundo porque é bom demais. E inferno astral é só a maneira como o mundo faz a gente entender como é que somos fortes para resolver nossos problemas.

Feliz ano novo pra você a cada amanhecer!

Altavolt disse...

Luna, Sweet e Maria: Fico feliz por ter agradado e tocado leitoras tão qualificadas quanto vocês. Sinal que consegui transmitir tudo aquilo que pretendia. Nem sempre conseguimos, apesar de tentarmos sempre. Beijos a todas!

***MissUniversoPróprio*** disse...

Hum...que coisa boa de se ler! É maravilhoso descobrir que ainda existem pessoas como você, que não se deixaram impregnar pelas 'mazelas' da sociedade atual, mantendo-se firme na essência e no caráter, independente do que a vida lhe tenha reservado.

Um grande beijo, obrigada mais uma vez pela visita e lindo comentário e desculpe pela demora em vir por aqui. ;)

minicontosperversos disse...

um dia um moleque traça um plano, de se tornar um supererói

não precisa necessariamente ser um supererói poderoso ou bonzinho ou politicamente correto

a simples existência desse plano, que pode se realizar ou não, é o que faz o moleque se diferenciar de uma esponjan (o roberval lá embaixo, será que teve um plano?)

tá que nem sempre as coisas saem como planejado, mas se ele tentatr com força, no mínimo a essência desse supererói ele leva pra sua vida adulta

e isso é o que as pessoas traduzem pelo "por que estamos aqui" existencial, aquela coisa nietzscheana

não tem inferno astral que oprima o cara que conseguiu levar o plano (sonho) adiante

Altavolt disse...

Miss: É isso aí, o importante é mantermos a nossa essência! Beijão!

MCP: É verdade, quem traça um plano sempre tem mais chance de se manter no bom caminho do auto-conhecimento. Abraço!

***MissUniversoPróprio*** disse...

Olá, Alta! É verdade, acho que não há no mundo quem seja sentimentalmente estável...

Mas acho que nós mulheres somos mais suscetíveis às instabilidades do coração. E é por isso que lá no blog as mulheres dominam! Achei foi graça do "Clube da Luluzinha", mas os homens são sempre bem vindos também, viu? ;)

Beijosss!

Luna Sanchez disse...

Passando pra deixar beijo de Dia das Crianças. ^^

ℓυηα

Vampira Dea disse...

O mesmo, mesmo com certeza n é, mais eu entendo bem o q vc disse. Eu de vez em qd fico imaginando esse encontro do eu que fui com o eu que sou. Ia ser no mínimo divertido. E parabéns por insistir na corrida, ainda bem q melhorou.

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