sábado, 22 de setembro de 2012

O dia em que os rollinbunds* foram retirar o kit (ferra) de corrida!

*Rollinbunds é uma  alcunha dada a um grupo  de amigos que, já no início dos anos 90, viviam , entre outras modalidades de dificuldades, algumas desventuras  em série nos deslocamentos  diários para a ida ao trabalho e a volta para a casa, em bairros periféricos da  cidade de São Paulo.  

Passados quase vinte anos da separação do bando de rollinbunds, apenas dois deles ainda mantêm contato contínuo, tendo inclusive se tornado compadres nos anos subsequentes à separação da famigerada gangue de desafortunados.
Nos anos 2000, esses dois rollinbunds passaram a se dedicar às corridas de rua, como forma de extravasar o stress da metrópole, bem como para tentar manter um mínimo de forma física possível nessa idade já um pouco mais adiantada. 

Nessas corridas, geralmente realizadas nas manhãs de domingo, os participantes costumam retirar seus kits (camiseta, número de peito, bolsa, etc.) com dois dias de antecedência, para chegarem uniformizados no dia do evento.

Essa prática nunca trouxe nenhum problema, até que, para a corrida da primavera, os rollinbunds, bem como todos os demais atletas, foram instados a retirar seu kit (ferra) de participação em um Hotel chamado Transamérica, que fica numa área longínqua da capital paulista, no bairro de Santo Amaro, e tem apenas a marginal Pinheiros como acesso.

Some-se a isso, que os kits seriam entregues apenas na sexta e no sábado. Assim sendo, os rollinbunds, após o susto da localidade em que teriam que ir buscar os apetrechos, passaram a engendrar o seu plano de deslocamento. Pedestres inveterados que são, consultaram o oráculo Google, para saber qual condução precisariam utilizar para chegar ao local. Descobriram que, de ônibus, numa sexta à noite, depois do trabalho, gastariam cerca de 2h45m para aportar nesse suntuoso e distante hotel. Cogitaram a opção de caminhar pela Marginal Pinheiros até o ponto do Hotel, mas tendo em vista se tratar de via inapropriada para andarilhos, bem como a distância de cerca de onze quilômetros, houveram por bem lançar mão do trem, modal de transporte que lhes pareceu mais pertinente para acessar aquela inóspita região da cidade, na qual as pessoas de bens só se deslocam (com imensa lentidão, devido ao acúmulo, claro) a bordo de suas máquinas automotoras possantes e maravilhosas. 

Embarcaram no trem com destino ao Grajaú na estação Pinheiros, depois de ali chegarem pelo metrô da linha amarela e caminharem por cerca de quinze minutos em meio a uma manada humana para chegar à plataforma da linha desejada. Na plataforma, deram muita sorte, pois um trem vazio acabava de aportar por aquelas plagas.
Devidamente aboletados em um vagão, ficaram próximo à porta, em meio à massa humana que ali se formara.
Meia hora depois, andando sempre ao lado da Marginal Pinheiros, cujos carros engarrafados pareciam estar parados, chegaram à estação Santo Amaro, que era o ponto mais próximo para um pedestre poder tentar acessar aquela luxuosa e restrita localidade, que por obra caprichosa do destino estavam sendo obrigados a visitar naquela chuvosa noite paulistana.

Chegaram à calçada enlameada da Marginal Pinheiros e caminharam por áreas pouco propícias para o deslocamento humano, em um local completamente concebido para o tráfego de veículos automotivos, no qual sequer havia faixas de pedestres. Sempre que precisavam atravessar o leito carroçável ( e ali só tinha leito carroçável) expunham-se a grandes riscos de atropelamento. 

Após um pequeno périplo, perceberam a fachada do Hotel Transamérica. No entanto, ficaram se perguntando como adentrariam ao local, tendo em vista que não se viam por ali caminhos ou veredas que podiam ser utilizadas por pedestres, e sim apenas vias sinalizadas para carros.
Ao chegar ali andando e "do nada", além de modestamente  vestidos, assustaram os porteiros/vigias, todos eles elegantemente trajados com ternos sóbrios e bem cortados. Percebendo o espanto e a prontidão dos vigias, logo trataram de quebrar o gelo e perguntaram em alto e bom som se era ali a retirada dos kits. Os porteiros responderam que sim, mas ficaram meio constrangidos ao informar aos rollinbunds que eles precisariam se deslocar com cuidado, evitando riscos de serem atropelados, pelo amplo estacionamento que tomava toda a área de frente daquele faraônico complexo hoteleiro.  

Assim, se aproximaram da entrada principal do Hotel, onde fizeram questão de perguntar ao carregador de malas se era ali mesmo a retirada dos kits. Esse confirmou com desdém e ar blasé, enquanto dava atenção a uma roda se socialites e madames muitíssimo bem vestidas. Os rollinbunds passaram, pela primeira vez na vida, por uma daquelas portas giratórias de hotel grã-fino e acessaram o enorme hall de entrada, muito perfumado e frequentado apenas por pessoas de fino trato. As únicas portas giratórias que conheciam  até então eram as dos bancos, que sempre travavam quando da tentativa de entrada por parte deles. 

Após irem ao luxuoso sanitário, onde quase tomaram um banho completo utilizando o sabão líquido caríssimo, bem como o papel-toalha extra-macio que ali estava à disposição dos hóspedes e visitantes, finalmente chegaram à sala de entrega dos kits.

Por curiosidade, perguntaram aos funcionários do evento sobre o motivo daquele local tão distante ter sido o escolhido para a entrega de kits, ao que estes informaram ser devido à facilidade para pouso de helicópteros naquele complexo, que dispunha de dezenas de heliportos.     

Resignados, pegaram suas sacolas e saíram em sua caminhada, não sem antes terem tido a pachorra de perguntar aos porteiros sobre qual seria a estação de trem mais perto dali, visto que o local ficava entre duas delas, ao que estes, novamente pasmos, responderam que era a estação Santo Amaro.

Os rollinbunds saíram dali com alguma convicção de que talvez sejam os únicos dos cinco mil participantes da corrida da primavera a conseguir a proeza de retirar esses kits utilizando trem e, como pedestres,  terem andado até o majestoso, e acessível para poucos, Hotel Transamérica.

6 comentários:

Tânia Peixoto disse...

Grande Altamir!

Voce e os seus textos instigadores! Numa metrópole do porte de São Paulo, onde o mundo parece estar sintetizado nela em vários aspectos, chegar a um determinado lugar, por mais perto que possa parecer, seja por meio de transporte, ou mesmo a pé, não é uma atividade fácil, tampouco prazerosa. Perde-se muito tempo em deslocamentos diários até o trabalho e na volta para casa. Partindo da reflexão de um caso particular, voce consegue nos fazer refletir acerca da dureza do cotidiano das pessoas ditas comuns, que muito cedo deixam as suas residências e passam parte considerável do dia, e da noite, fora delas... Igualmente nos faz divisar a estratificação social da sociedade paulistana, assim como a geografia da cidade, desconfigurada pela densidade demográfica, pela voraz especulação imobiliária, pelo desequilíbrio de todas as naturezas.

Viajei com os "rollinbunds"!

Meu abraço aqui do Cariri,
Tânia Peixoto

Altavolt disse...

Obrigado, cara Tânia, por ter entendido exatamente os pontos em que eu queria tocar. As agruras diárias do povo paulistano e a ênfase que alguns setores dão às segregações e às diferenças econômicas e sociais.

Grande abraço de Sampa!

Altamir

Anônimo disse...

Olá, Altinha.

Realmente, meu amigo, é hilariante e, por vezes, incoerente essa aventura (diária???) em tentar transpor obstáculos do ponto de partida até ao ponto de chegada. Somente os "muito atletas", com doses de "anabolizantes", digo, com boa dose de vontade, disposição e comprometimento (e por que não dizer tb necessidade???), é que conseguem porque esses "normais" sempre são olhados como ET por essa classe privilegiada que só ostenta.

bjin



Maria de Fátima Rodrigues

Alexandre Correa disse...

É Rolli, vivemos num mundo onde a segregação social é muito forte.Infelizmente neste país praticar esporte é apenas para os mais afortunados, pois para eles os de menores renda, não são praticantes de nenhum esporte.Infelizmente o país realmente não investe em esportes para a população mais carente e acaba vivendo numa vida sedentária, onde ela ocupa praticamente todo o seu tempo trabalhando.A atividade esportiva acabou ficando restrita aos burgueses, na maioria jovens que são sustentados pelos pais abastados e estes também praticam esportes por terem tempo pra executar algum tipo de atividade física.Nós Rollinbunds tentamos sair dessa pesquisa onde somente os mais ricos praticam esportes e acaba acontecendo o que vocês presenciaram, buscar o Kit em um local frequentado por essa classe que me dá nojo, e por isso o povo em geral está nesta merda.A falta de esporte também faz parte da calamidade da saúde púlica em nosso país.Acho que já escrevi demais.É essa a minha opinião, a respeitor de tal fato ocorrido.
Up The Rollis!!!!! Dá proxíma vez aluga um helicóptero, OK?RSRSRSRS

Altavolt disse...

Fátima e Alexandre,

Valeu pela colaboração certeira e muito antenada de ambos. Realmente, vocês captaram o espírito da coisa e o enriqueceram ainda mais. Essa é a ideia,através da discussão, aumentar o ângulo de visão das pessoas e também o nosso próprio.

Abraços,

Altamir (Um rollinbund)

Anônimo disse...

Valeu Altamir,



Parabéns, como sempre escrevendo e apontando muito bem suas críticas.



Abração



Tião

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