quarta-feira, 27 de abril de 2011

Chico Science - A falta que o líder faz


Há quatorze anos perdíamos, precocemente, o grande artista Francisco de Assis França - o inesquecível Chico Science - em um acidente automobilístico.

A falta que o mangue-boy faz no cenário musical brasileiro ainda pode ser sentida até hoje, pois, ao contrário de outros importantes artistas mortos recentemente, Chico Science ainda não havia tido tempo de explorar todo o seu potencial criativo, que era impressionantemente elevado.

Ele foi o líder de um movimento cultural, o mangue beat, que ainda hoje pode ser considerado a última grande revolução no panorama musical brasileiro, além de render frutos. Tudo de novo e relevante que aparece na música brasileira, atualmente, ainda tem alguma ou muita influência das ideias e sacadas geniais de Chico Science e da Nação Zumbi.

Eles surgiram na grande mídia do sul maravilha em 1993, e, desde aquele início, já diziam fortemente a que vinham e quais eram as suas intenções. Vinham para literalmente balançar as estruturas da nossa, àquela altura, insossa produção cultural e musical.

Aquele período era um marasmo só. O rock nacional já havia passado do seu auge. A MPB só mantinha seus grandes nomes. O axé, o sertanejo e o pagode dominavam todas as rádios e canais de Tv à custa de muito jabá das gravadoras. Ou seja, a mesmice e a falta de inventividade reinavam absolutas.

Em meio a tudo isso surge o furacão Chico Science, liderando outras pessoas e bandas também geniais, como Fred Zero Quatro, Otto, Mestre Ambrósio, bem como a própria Nação Zumbi, que ficaria órfã do seu mentor tão cedo e, mesmo assim, continuaria produzindo muita coisa interessante nos anos seguintes.

Li uma declaração do talentoso cantor Seu Jorge, na qual ele afirmava que, naquele início dos anos 90 tinha a intenção de criar uma musicalidade alternativa e diferente, mas que depois de assistir a um show da ainda iniciante Nação Zumbi, sentiu que tudo o que podia haver de mais novo e interessante na música já estava sendo criado por aquele grupo de recifenses. Segundo ele, depois daquela explosão de ideias e sonoridades, tudo o mais ficava parecendo brincadeira de criança.

Para mim, Chico Science foi o último revolucionário da nossa cultura, pois conseguiu, com seu talento criar uma música poderosa, dotada de mensagens e ideias renovadoras. Foi eficiente ao criar letras e músicas que diziam muito. Provou que é possível ser criativo e popular ao mesmo tempo. Provou que inteligência e conscientização cabem e são necessárias para todos, em qualquer contexto.

Além disso, frise-se que ele morreu durante os preparativos para o carnaval de 1997, quando trabalhava arduamente - e por isso corria tanto - para oferecer uma alternativa popular, mas de qualidade, aos tchans e axés da Bahia, que assolavam ininterruptamente os ouvidos de todos naquele período.

Podem notar, todos os talentos verdadeiros que surgem atualmente, de alguma forma, ainda bebem na fonte do inesgotável Chico Science.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Olhos nos olhos

Está faltando olhos nos olhos

E não apenas nos idílios amorosos

Está faltando olhos nos olhos nas relações humanas

Sejam de que natureza forem

Muito se fala, pouco se ouve

Muito se fala na primeira pessoa

Quase nada se ouve dos outros com atenção

Muita comunicação à distância

Quase nenhuma interação presencial

Muitos padrões comportamentais estabelecidos

Pouquíssimos relacionamentos verdadeiros

Muitos manuais de etiquetas e atitudes

Quase nenhuma atitude realmente digna

Muitas cópias de cópias de cópias

Raríssimas ideias inovadoras

Muita teoria, pouca prática

Tempos do politicamente correto

Muitos políticos nada corretos

Muita frescura, muita diferenciação, muita intolerância

Muito EU, pouco NÓS

Muito a mim, pouco a vós

Muitos segmentos, muitas castas

Pouca igualdade, pouca solidariedade

Pouco respeito, pouca atenção

Muito interesse, muita alienação

O ser humano precisa se ver mais

Se falar mais, se ouvir mais

Está faltando olhos nos olhos

E não apenas nos idílios amorosos


Dedicado a todos nós, seres humanos, de todas as partes, de todas as raças, de todos os credos, de todas as orientações sexuais, de todas as idades. Ninguém pode ser considerado tão rico que não necessite de um sorriso, nem tão pobre que não possa lançar um olhar de compreensão.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

(Des) Considerações sobre a atual sociedade brasileira

1) Diferentemente do Japão, aqui não temos tsunami ou terremoto, porém, estão incrustados na alma da maioria o jeitinho brasileiro e a maldita mania de sempre levar vantagem em tudo.



2) Os humanos modernos vivem tecnologicamente conectadíssimos, contudo, andam como autômatos no mundo real, ignorando quase tudo que os rodeia. Às vezes, pagam altos preços por essa negligência e por essa ausência da vida ao vivo.


3) Os artistas incensados, promovidos e veiculados à exaustão pela grande mídia, a custa de muito jabá, são cada vez mais sofríveis. Enquanto isso, artistas de verdade, independentes, de norte a sul do país, sofrem para divulgar seus trabalhos de qualidade, e raramente são reconhecidos.


4) A televisão tem, além de entreter, o dever de promover a cultura e a educação do povo brasileiro. Está na Constituição. No entanto, o que vemos cada vez mais é a sua enorme contribuição para a imbecilização de todos os telespectadores.


5) As pessoas gostam de porcarias porque vêem na TV ou vêem porcarias na TV porque gostam?


6) Os políticos são em sua grande maioria tachados de corruptos e safados. Mas quem os elege, eleição após eleição? Não somos nós mesmos? Eles não seriam o nosso espelho? Em nosso cotidiano, somos responsáveis, engajados e temos respeito para com as outras pessoas?


7) As tecnologias, redes sociais e congêneres não deveriam aproximar e fazer interagir de verdade os seres humanos, ao invés de levar a grande maioria às raias da debilidade mental?


8) Twitter, Facebook, Orkut: Essas ferramentas tem aguçado a autenticidade e a criatividade das pessoas, ou apenas tem sido usadas como caixa de ressonância de ideias alheias pela maioria? Muitos repassam cegamente adiante ideias estapafúrdias, simplesmente porque foram lançadas por pessoas famosas!


9) Por que as pessoas tem, cada vez mais, cultuado e valorizado as unanimidades eleitas e propagadas pelos interesses empresariais e midiáticos, ignorando completamente qualquer manifestação genuinamente cultural independente? Será que é por causa da sensação do inconsciente coletivo de que aquilo que não está na tela da TV não está no Mundo?


10) Os padrões de beleza, moda, atitude e saúde devem necessariamente ser os que estão sendo empurrados ao povo goela abaixo pela mídia, ou haveriam outras possibilidades de vida saudável e inteligente longe desses estereótipos massificados e que tantos danos tem causado a muitos incautos que querem a todo custo segui-los?

sábado, 5 de março de 2011

Homem-Sapato

Inspirado no conto "homemcarro",
de Ademir Assunção,
no livro "A Máquina Peluda".
O Homem-Sapato já conta com milhares de quilômetros rodados. Já fez várias revisões e ainda continua apresentando bom desempenho. Os triglicerídeos encontram-se em níveis desejáveis, assim como o colesterol e a glicemia. Poderia se dizer que ele está bem lubrificado. Também, pudera, vive rodando, ou melhor, circulando pelas ruas da cidade, faça chuva ou faça sol. Enfrenta as escadas e rampas sem medo de ser feliz. Já não se preocupa se a distância que irá percorrer seja medida em quilômetros, pois sabe que, na maioria das vezes, seu desempenho será melhor do que os veículos motorizados. Os carros simplesmente não andam mais numa cidade como São Paulo. Enquanto isso, o Homem-Sapato segue lépido e fagueiro pelas calçadas esburacadas e malconservadas. Faz em uma hora e meia o que um motorista faria em duas horas ou talvez mais. E, de quebra, pratica diariamente a sua atividade aeróbica. Une o útil ao agradável em sua rotina de deslocamentos. Evita os riscos vividos constantemente pelas motos e bicicletas, e o stress imenso causado pelo anda e para dos veículos convencionais. Também não precisa sofrer as agruras e as incivilidades dos ônibus e metrôs caros e abarrotados. Ao chegar em casa, o Homem-Sapato é diariamente bombardeado pelas dezenas de elegantes propagandas de veículos. Não consegue entender como podem vender tantos carros em uma cidade que praticamente já não anda e respira apenas monóxido de carbono. Tranquilo, sabe que já licenciou e pagou o IPVA do seu Vulcabrás. Na semana passada, levou-o para a inspeção veicular e foi aprovado com louvor. O técnico da Controlar ficou impressionado com as baixíssimas emissões de poluentes do Homem-Sapato. Chegou a afirmar que nunca havia presenciado um catalisador tão eficiente. O máximo que pôde detectar foi algum chulézinho básico e eventualmente alguma flatulência, visto que ninguém é de ferro, e o sistema de escapamento tem que funcionar perfeitamente. Além de todas essas vantagens, um veículo ultra compacto como o Homem-Sapato raramente precisa se preocupar com os problemas de estacionamento. Não é incomodado pelos famigerados flanelinhas, nem tampouco precisa ficar preenchendo cartões de zona azul. Nesse quesito, as únicas dificuldades que enfrenta acontecem nas raras vezes que se aventura a trafegar nos transportes coletivos. Aí, invariavelmente, falta espaço para uma perfeita baliza no chão dos veículos e o Homem-Sapato chegar a ficar por cima ou por baixo de outros pisantes similares a ele. Fora isso, anda livre. Mesmo nas enchentes que assolam Sampa, o desempenho do Homem-Sapato é considerado bastante razoável. Quando necessário, sobe nas partes mais altas e se protege. Quando não, segue andando pelas próprias ruas alagadas, tomando alguns cuidados básicos. Quase nada barra a autonomia de deslocamento do Homem-Sapato, salvo condições climáticas muito severas, que não acontecem com muita frequência. Até os amigos do alheio pensam bem antes de abordar o Homem-Sapato, tendo em vista suporem que ali não vão encontrar nada de que possam se apoderar, a não ser um par roto e desgastado de sapatos. Ou seja, o Homem-Sapato trafega pela cidade quase invisível, poucos o notam, visto estarem atentos aos volantes e aos semáforos. Por isso, o Homem-Sapato pratica a caminhada defensiva, ou seja, está sempre atento aos movimentos dos outros veículos, com o objetivo de evitar acidentes e traumas. É claro que o Homem-Sapato, como cidadão, tem suas reivindicações aos governantes e elas não poderiam deixar de ser relativas à melhoria das condições de pavimentação, sinalização e iluminação das calçadas e passeios públicos, tendo em vista o pouco caso e a desatenção com que são tratados os caminhos para pedestres nesta cidade. Mas, apesar dos pesares, o Homem-Sapato continua literalmente sua caminhada feliz da vida, chegando em casa cansado, mas tranquilo. Então, basta uma bela ducha, uma troca de óleo e um reabastecimento rápidos, uma noite de descanso, para, no outro dia, começar tudo de novo.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Todos estão com muita pressa

Hoje em dia, principalmente nos grandes centros, as pessoas correm o tempo todo para dar conta dos seus infindáveis compromissos. É chique e modernoso parecer estar sempre muito ocupado, atarefado e apressado. Para ser cool, há que se estar sempre com aquele ar blasé, próprio de quem é alguém supostamente importante demais para perder tempo com questões mundanas e comezinhas.
Agora, será que há necessidade de marcar tanta coisa simultaneamente, ou o homem dito moderno não está sabendo programar direito a sua agenda e priorizar os eventos da sua vida?
Tem gente que faz muitas coisas sem prestar a devida atenção, pois está sempre com a mente na próxima tarefa ou no próximo lugar em que deverá estar. Não se concentra em nada direito. Às vezes, um sujeito está em um local, mas já está conectado, de várias maneiras (celular, lap top e o escambau...) a outras pessoas ou eventos.
Tenho presenciado muitas situações em que um grupo de pessoas está reunido em determinado lugar, mas todas elas estão falando ou teclando ao celular, quando não estão conectados à web, tuitando. Ou seja, estão fisicamente próximos, mas mentalmente apartados e distantes.
Tal conectividade abusiva tem gerado outros sintomas em nossa sociedade. As pessoas estão cada vez interagindo menos tête-à-tête. Estão diminuindo sensivelmente os contatos de camaradagem, espontaneidade e interação no mundo real e físico. Muitos andam como autômatos por todos os lugares. Não se comunicam diretamente e, em muitos casos, mesmo em vias públicas movimentadas, sequer percebem a presença de outras pessoas ao seu redor, o que pode ser perigoso até em relação às questões de segurança.
Apesar de tanta comunicação virtual em tempo real com "amigos" distantes, há muitas situações em que as pessoas praticamente não se comunicam com aqueles que estão fisicamente próximos. É um contra-senso, mas nesta época em que as formas de comunicação encontram-se tão em alta, talvez seja o tempo em que os seres humanos estejam interagindo menos e se relacionando com muito mais frieza nas suas andanças e ações cotidianas.
Tem havido cada vez menos espaço nas ruas e lugares públicos para a cortesia, para a troca de ideias e para a comunicação direta e presencial. Cada vez menos as pessoas tem observado o seu próximo. Entre a pressa desenfreada e a onipresente comunicação à distância, acabou sobrando para a convivência cordial e pacífica entre as pessoas, que quase já não existe mais. Está fadada à extinção. Pior para nós, que cada vez mais estamos passando a viver num mundo mais individualista e muito menos coletivo e solidário.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Atrofia mental

Vivemos dias de atrofia mental. Somos, todos, bombardeados por mesmices midiáticas que pautam e uniformizam as posturas e os comportamentos das pessoas. Haja BBBesteiras estampadas diariamente em todos os sites, jornais e revistas. Tais "notícias" têm destaque nas primeiras páginas (eletrônicas ou impressas) de todos os grandes e poderosos veículos de comunicação, como se fossem "assuntos" realmente relevantes para toda a sociedade.
As fofocas e notícias desimportantes tomaram conta do noticiário. Publica-se (às vezes em tempo real, como no Twitter) aonde está, com quem está e o que está comendo a celebridade X. Que a celebridade Y está fazendo compras no shopping tal. Que o participante Zezinho do reality show não sei das quantas está maquinando planos para ficar com a Mariazinha. Façam-me o favor! É muita baboseira e desinformação para um povo que já tem a infelicidade de contar com um sistema educacional tão deficiente quanto é o brasileiro. É municiar de padrões estéticos inalcançáveis, de obejtivos estapafúrdios e utopias deformadas, as cabecinhas já tão despreparadas de enorme parcela da nossa gente.
Apresentadores de peso se esmeram para tentar tornar interessantes os folhetins ridículos e vazios que são "encenados" nos infindáveis BBB´s da vida.
É até compreensível que tais programas e notícias existam e tenham seu público. O que é de lascar é que sejam alçados ao patamar que atingiram de importância e relevância.
Realmente, caminha-se vertiginosamente para o dia em que todas as pessoas se tornarão montanhas de músculos, botox, piercings e tatuagens. Sem esquecer do bronzeamento artificial e das escovas progressivas, hoje tão em voga. Quanto ao conteúdo, aparência e musculatura cerebral, não há que se preocupar, pois isso não tem importância. Apenas a aparência é importante.
Não há mais espaço nos meios de comunicação de massa para a autenticidade, para a originalidade e para a inspiração. Os poucos programas que ainda apresentam boas atrações são veiculados nas televisões educativas, que têm maior nível de independência e liberdade.
Nos últimos tempos, pude assitir nesses canais (Como TV Câmara, TV Justiça ou Canal Universitário) algumas entrevistas com pessoas realmente interessantes, totalmente fora dos padrões globais e "vejísticos" de comportamento, ações e intenções.
Falo dos escritores e poetas Fabrício Carpinejar e Ademir Assunção. Pessoas de conteúdo e criatividade, que merecem a nossa atenção, por terem a capacidade de nos fazer pensar e vislumbrar outras perspectivas do mundo e da vida cotidiana.
Sei que é difícil, mas acho muito importante que pessoas com conteúdos e formas diferentes dos padrões estabelecidos possam também ter os seus trabalhos e ideias veiculados e divulgados nos meios de comunicação. Precisamos, todos, de mais diversidade, de mais possibilidades, de mais espontaneidade. Ou seremos, muito em breve, uma legião de cérebros completamente atrofiados e compactados.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Dia mundial sem hipocrisia

Caríssimos, logo em seguida ao dia mundial sem carro, queria lançar aqui mais uma campanha de conscientização, que também, tal qual aquela, já está fadada ao insucesso, visto tratar-se de tema espinhoso, de baixíssima receptividade por parte das pessoas em geral. Seria o dia mundial sem hipocrisia.
A ideia consiste, similarmente ao caso do automóvel, em que, pelo menos nessa data, as pessoas saíssem de casa desarmadas da hipocrisia. Deixariam a hipocrisia dormindo até mais tarde, brincando com com os bichinhos de estimação e regando as plantas. E olha que não faltariam tarefas para a Sra. Hipocrisia, e todas elas muito mais úteis do que ficar por aí bajulando algumas pessoas, enrolando outras, distorcendo assuntos, tapando o sol com a peneira, fingindo não ver o que se passa de errado e desagradável no seu entorno, entre tantas outras tarefas ingratas desempenhadas com maestria por essa dama sem vergonha e sem caráter.
No dia mundial sem hipocrisia, as pessoas estariam livres para falar o que realmente pensam, para admirar quem realmente admiram e para ignorar todos aqueles dos quais se aproximam apenas por interesses profissionais, pessoais ou econômicos. Seria também interessante encontrar uma fórmula química que possibilitasse a todos a amnésia total dos fatos no dia seguinte, para que não houvesse retaliações, muxoxos e reclamações pelos atos praticados no dia da verdade e da sinceridade absolutas. Nesse dia, haveria uma trégua ampla total e irrestrita em relação à falsidade, à enganação e à mentira. Todos finalmente estariam livres para dizer a completa verdade e tomar as atitudes justas e necessárias nas suas respectivas áreas de atuação.
Alguns talvez sucumbissem nessa data, uma vez que não receberiam rapapés, nem seriam tratados com os salamaleques habituais por parte dos seus séquitos de empregados, subordinados e agregados. Talvez a verdade, mesmo que num único dia, fosse uma dose elevadamente cavalar para pessoas acostumadas à contínua e ininterrupta puxação de saco.
Os bajuladores, esses teriam um dia de folga do seu pesado fardo de passar os anos vivendo apenas e tão somente para o atendimento de necessidades e vontades alheias e distantes das suas. Talvez vivessem um pouquinho das suas próprias vidas nesse dia.
Quanto à maioria dos políticos, para estes talvez fosse melhor nem sair de casa nessa data especial, uma vez que quase se metamorfoseiam na própria hipocrisia, chegando, em alguns momentos, a serem o retrato mais fiel e acabado dela.
Seria um dia de liberdade, no qual não precisaríamos gastar nosso estoque de risos forçados e falsas expressões de amabilidade, mas em que, por outro lado, estariam totalmente liberados os sorrisos espontâneos e gratuitos e as conversas francas e desarmadas, que nada esperam em troca a não ser a amizade e a compreensão do interlocutor.
Sei, como já afirmei, que esta iniciativa não logrará êxito, pois, como no dia mundial sem carro, em que pouquíssimos deixam os véiculos em casa, a esmagadora maioria das pessoas jamais iria sair para a rua desprovida de seus cartuchos de hipocrisia, que passaram a ser tão indispensáveis na torta forma de convivência largamente adotada nessa estranha sociedade moderna em que vivemos.
Assim como o CO2 liberado pelos automóveis aumenta o buraco na camada de ozônio, as altas doses de hipocrisia liberadas nas relações humanas diárias contribuem fortemente para o vertiginoso aumento dos vazios existenciais em nossas almas. Veneno puro.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Tv brasileira: Sessenta anos promovendo o sorvetão na testa do povo!

Neste ano de 2010, a tv brasileira está em festa. Comemora sessenta anos da sua primeira transmissão. Homenagens, eventos e rasgações de seda não faltarão nesse momento. Contudo, talvez fosse a hora de pensarmos também nos grandes estragos e desserviços que essa televisão sessentona tem prestado à nação brasileira. São anos e anos de programação discutível e apelativa, nos quais em muito poucos casos, passíveis de serem contados nos dedos das mãos, mostrou produções inteligentes e inovadoras. E tais produções, quando existem, são veiculadas em horários absurdos ou então nos canais à cabo. Para o famigerado horário nobre sobram apenas os sofríveis programas de sempre, nos mesmos formatos, que praticamente são agressões à inteligência do homem mediano. Abusam dos bíceps, bundas e peitos siliconados, como se só isso importasse para garantir a tão disputada e cobiçada audiência.
São pegadinhas e videocassetadas, ridículas e surradas, sendo repetidas há mais de vinte anos. E haja merchan de patrocinadores para tais barbaridades! As empresas deveriam se envergonhar de fomentar tais imbecilidades coletivas. Queiramos ou não, nosso povo é e sempre foi muito influenciado pelo que assiste na tv, e, infelizmente, nossas crianças e jovens (muitos hoje já são sessentões também) sempre foram bombardeados por programas sem nenhuma noção. Daí o nosso povo, que conta com ensino público lamentável, ter se tornado em sua maioria, completamente incapacitado para uma forma salutar de convívio em sociedade.
Nesse triste contexto, sempre defendi que a televisão tivesse que obrigatoriamente ter uma programação ( E uma função social) que contribuísse para a diminuição desse enorme buraco que existe na formação da maioria dos brasileiros.
A tv tem um alcance muito grande e poderia, se nossas classes política e empresarial quisessem, levar informação e conscientização ao nosso povo, que nunca foi burro, mas é tratado pela tv, entre outras instâncias, como uma manada de completos idiotas.
Imaginem, só a título de exemplo, quanta gente no Brasil foi mal influenciada, durante anos a fio, pelo alfabeto do X, que só contribuiu para fazer com que milhões de crianças desaprendessem o pouco que talvez tivessem aprendido na escola.
Vida de gado (Como já cantou Zé Ramalho em outros tempos), é essa a vida que o nosso povo leva.
Seguindo bovinamente apenas o que é ditado e pautado pelos senhores da televisão, sem jamais ter condições de pensar por si só e questionar tudo aquilo que está fora da ordem (E como tem coisa fora da ordem, como diria Caetano!). A televisão nos deixou, sim, muito burros demais (Dá-lhe Titãs!) !
Rendo aqui as minhas homenagens à essa senhora sexagenária, que tantos sorvetões tem nos ajudado a esfregar em nossas próprias testas ao longo dessas décadas!!!
E tudo isso poderia ser tão diferente. Bastaria boa vontade.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Sobre a imbecilidade e a falsidade humanas

Incautos e desbravadores leitores: Este é um post "dois em um". Primeiro vem as patadas, para desopilar o fígado combalido deste que vos fala. Depois, vêm algumas breves dicas musicais, para dar alento a todos vocês.

Que a maioria das pessoas representa papéis sociais a maior parte do tempo, qualquer um com apenas dois neurônios pode observar.
É claro que devemos todos ter um mínimo de civilidade e nos comportarmos adequadamente, de acordo com a situação e o ambiente em que nos encontremos. Se não, seria a barbárie.
Contudo, noto que muitas pessoas têm colocado a hipocrisia e a falsidade em patamares estarrecedores. Atingiram um nível em que representam o tempo todo, adotam personas e procuram engabelar a todos aqueles com os quais convivem.
Além disso, ainda me choca, por mais que eu tenha vivido, a capacidade que muitos têm de apenas enrolar e empurrar as coisas com a barriga, não produzindo nada concreto ou palpável, mas vendendo uma imagem de super, hiper, ultra, mega competente e atualizado.
São pessoas que não são, apenas fingem que são. E os seus interlocutores - alguns também da mesma linha de pensamento - fingem concordar com tudo e também adotam posturas tolerantes e "políticas" (No mau sentido da palavra).
Ou seja, passam a viver num mundo de Poliana. Onde tudo parece cor-de-rosa. Um verdadeiro país das maravilhas. Tapam o sol com a peneira. E, acima de tudo, detestam aqueles que falam a verdade e tentam esclarecer os fatos e mostrar as coisas tal como são verdadeiramente. Estes são tidos como chatos, desagradáveis, inoportunos e passíveis de afastamento das hipócritas rodas dos que vivem de bajulações e rapapés improdutivos e infrutíferos.
Sei que muitos pensam que o mundo é assim mesmo e não vai mudar nunca. E, no fundo, até concordo. Mas não consigo deixar de achar profundamente lamentável que a verdade, a clareza de pensamentos e a transparência sejam tidas como coisas idiotas e repugnantes por um número cada vez maior de pessoas.
Será que as pessoas, ou a maioria delas, estão vindo equipadas apenas com o Tico e o Teco? Será que com tantas possibilidades tecnológicas, passaram a achar que não é mais necessário pensar, analisar e achar respostas para os problemas e para todas as questões que nos cercam e afligem ou deveriam afligir? Será que a moda agora é viver em constante e infindável estado de inércia e letargia? Será que o certo é deixar o barco correr e puxar o saco daqueles que porventura estejam numa posição "superior" na hierarquia social? Será que nascemos e vivemos anos apenas para isso? Será que o correto é engolir tudo aquilo que a grande mídia nos empurra goela baixo e aceitar como verdade incontestável e acabada?
Ainda me recuso a aceitar esse estado de coisas. Sinto que cada vez mais a dócil e servil imbecilidade grassa na nossa moderna sociedade. Todos bovinamente seguindo os supostos líderes e vivendo nessa realidade cada vez mais hipócrita e nada producente em termos de reais melhorias e avanços humanos.

Para contrabalançar a aridez e a dureza do post acima, e para poder acreditar que o mundo ainda tem jeito, dou duas dicas culturais:

1) Ouçam o CD "Música de Brinquedo", do Pato Fu. É uma mostra concreta e audível de que a criatividade e o talento humanos, quando bem aplicados, podem muito contra todas as babaquices e mesmices da vida. É simples e belo. E, acreditem, é muito difícil ser simples.




2) Ouçam o sábio Raul Seixas. Estive ouvindo o CD "Há dez mil anos atrás", de 1976, e é mais atual, sincero e verdadeiro do que quase tudo que há por aí no mundo da música. Uma verdadeira ode anti-hipocrisia.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

"Vote Tiririca, pior não fica!"

Que o horário eleitoral gratuito é um longo e interminável desfile de bizarrices e sandices todos nós já estamos cansados de saber. Contudo, parece que a capacidade dos grotescos candidatos - a cada eleição - em piorar o discurso e fazer despencar o nível é também uma ladeira sem fim.
Fico me sentindo um imbecil diante daquele monte de caras-de-pau falando toda a sorte de besteiras e impropérios. É uma afronta à inteligência de qualquer cidadão mediano.
Para chamar o horário eleitoral de circo já não falta mesmo mais nada, uma vez que nesta eleição temos até o palhaço Tiririca com o seu slogan imbatível em termos de objetividade e sinceridade: "Vote Tiririca, pior não fica". E o pior é que ele tem razão. O nível da política no Brasil é tão baixo, que talvez o Tiririca, se eleito, não venha a ser o pior parlamentar que o Brasil possa ter tido ou ainda venha a ter.
É preocupante saber que os nossos dirigentes e parlamentares serão (Ou continuarão a ser) pessoas com esse baixo nível de consciência e comprometimento com a coisa pública e com as necessidades e anseios da sociedade brasileira.
Parece que exatamente todos aqueles que não se deram bem em suas carreiras "artísticas" é que resolveram se valer de sua imagem pública para tentar uma vaga na política. Temos candidatos "cantores", "atores", "comediantes", "Ex-BBB's" e, claro, não poderiam faltar as "mulheres frutas" e congêneres alimentícios. A política virou uma autêntica e grande curva de rio. Tudo o que não presta pára nela.
Quanto ao horário político, temos o livre arbítrio de simplesmente ignorá-lo. É fato. Mas, depois de eleitos - e fatalmente muitos candidatos esdrúxulos se elegerão - certamente todos iremos arcar com os inúmeros ônus da política mal feita, que visa apenas interesses menores e pessoais. Nós até poderemos elegê-los e esquecê-los nos próximos quatro ou oito anos, mas os resultados das suas legislaturas e mandatos estapafúrdios com certeza irão aparecer em nossas vidas, seja na forma de ações defeituosas e mal-intencionadas, seja na forma de omissões e descasos.
É líquido e certo: Quem irá levar o chumbo grosso seremos nós, a incauta massa de eleitores.
Por isso, o mínimo que podemos fazer é tentar separar o pouco trigo que existe no meio de tanto joio, e elegermos pessoas com um mínimo de decência, coerência, clareza e honestidade.
A política está tão banalizada, pútrida e mal-cheirosa em nosso país, que parece estar se tornando definitivamente um reduto de aventureiros e aproveitadores. E, infelizmente, não tenho observado muitas manifestações de repúdio a esse estado degenerativo de coisas. Tudo parece estar sendo visto como normal, como aceitável e como parte da vida moderna. Será que essa baixaria na política tem necessariamente que existir? Será que só esse tipo de gente pode se candidatar hoje em dia? Será que político virou mesmo sinônimo de palhaço e pessoa sem qualquer credibilidade?
São essas as questões que me afligem nesse período eleitoral, que é crucial na vida de qualquer país, mas que tem sido encarado por aqui como um grande circo midiático.
Só que, nesse circo, os palhaços ficam sentados na plateia, e costumam ser o alvo das gargalhadas e gozações dos protagonistas das presepadas, que ficam no picadeiro, como centro das atenções.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Gente com "G" maiúsculo

No último final de semana, estava eu assistindo programas de TV e filmes em DVD, quando tive dois bons e raros momentos de contato com histórias de pessoas especiais.
No sábado à noite, o programa "Legendários", da Rede Record, prestou um belo e merecido tributo ao falecido humorista Mussum.
João Gordo, que é da minha geração, foi o apresentador da matéria. E o fez com muita emoção e verdade, conseguindo transmitir aos telespectadores a sua admiração pessoal por Mussum, e por tudo aquilo que o trapalhão mais engraçado de todos representou na sua infância e adolescência.
Também foram mostrados momentos de Mussum como vocalista do grupo "Originais do Samba", quando ele roubava a cena com suas coreografias e trejeitos bastante peculiares e engraçadíssimos.
Tanto no humorismo, quanto na música, Mussum foi um artista completo. Infelizmente, só depois de sua morte prematura, começamos a valorizar todo o seu talento e simpatia.
Ficou claro, com o passar dos anos, que ele era o integrante mais inspirado dos Trapalhões, aquele que tinha o dom de provocar risos e gargalhadas espontâneos em crianças e adultos.
Além disso, atuou numa época em que o politicamente correto ainda não imperava, o que dava muito maior liberdade de criação a ele e aos seus companheiros de comédia. Eles se xingavam, se ofendiam, mas no final, tudo acabava bem, pois a pureza e a amizade estavam acima de tudo. Era recorrente nos programas dos Trapalhões, que o Mussum fosse chamado de "Negão" pelos colegas, bem como a sua resposta rápida, rasteira e marcante: "Negão é o teu passadis!"
Somente ao ver essa homenagem ao grande "Mussa", pude sentir quanta falta ele ainda faz, e quanto estamos precisando de gente assim atualmente. Em tempos tão pasteurizados e massificados, como seria bom termos mais pessoas como Mussum, que nos brindassem com tiradas e posturas autênticas e leves. Que nos remetessem aos tempos de criança com naturalidade e simplicidade desconcertantes. Definitivamente, não é fácil ser palhaço como Mussum foi. Que Deus o tenha em bom lugar!

No domingo, ao assistir ao filme "Mãos Talentosas", que conta a vida do neurocirurgião Benjamin Carson, fiquei sabendo de outra história de vida belíssima, que realmente merece ser contada e conhecida por todos.
No filme, o astro Cuba Gooding, Jr. interpreta o Dr. Ben Carson, negro, de origem humilde, criado apenas pela dedicada mãe, que consegue superar vários obstáculos e tornar-se um médico respeitadíssimo em todo o mundo, sendo o primeiro a ter sucesso em certos procedimentos cirúrgicos de alto risco, chegando a salvar pacientes tidos até então como casos perdidos pela medicina em geral.
Além da capacidade profissional, chama a atenção também a humanidade, a humildade e a responsabilidade social do Dr. Carson, pessoa afável e de trato muito fácil, apesar da inteligência e talento prodigiosos.
Recomendo a todos que assistam a esse filme, ou leiam os livros do Dr. Ben Carson, pois são fontes de reflexão e sabedoria, dois itens tão escassos nos dias de comportamentos padronizados e mesmice que vivemos.
Em dois dias, dois exemplos de vida, cada qual no seu meio de atuação. Grandes pessoas. Gente com "G" maiúsculo!

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Já vivemos o Big Brother de Orwell

A expressão Big Brother, atualmente tão pobremente difundida em todo o mundo, na verdade foi criada pelo escritor inglês George Orwell, em seu livro "1984", lançado em 1949.
Mal sabia Orwell, que sessenta anos após a publicação de sua obra prima, o termo seria usado de maneira tão vulgar, e para representar coisas que muito pouco, ou nada, têm a ver com a rica realidade fictícia criada por ele.
Ao ler "1984", logo percebemos a forte crítica social e política engendrada por Orwell. Antes da metade do século XX, o autor estava muito preocupado com os sistemas políticos totalitários e com todas as suas formas de controle dos cidadãos. Por isso, muito criativo e visionário que era, imaginou toda uma sociedade vivendo sob as ordens e o controle do Grande Irmão, que chegava a ter meios e mecanismos para descobrir até mesmo o que os cidadãos pensavam. Era impossível fugir ao campo de visão do Grande Irmão. E era essa, acredito, a principal sensação aterradora que Orwell queria passar em sua criação.
Hoje, no entanto, como já disse, a expressão de Orwell é sim muito conhecida em todo o planeta, mas, infelizmente, talvez pelos motivos errados e muito distantes daqueles pensados pelo escritor.
Big Brother se tornou uma franquia televisiva de reality show, cujos gosto e finalidade são completamente duvidosos e discutíveis.
De qualquer forma, atualmente, a expressão tem sido usada - aí sim com alguma familiaridade com a obra de Orwell - sempre que as pessoas se sentem vigiadas e constrangidas pelos moderníssimos sistemas de segurança implantados de diversas formas, em variados ambientes e situações da vida moderna.
Hoje, somos vigiados ostensivamente por câmeras de televisão, de trânsito, por CFTV's de empresas e instituições públicas, por rastreadores via satélite, por ligações que fazemos e recebemos no celular, pela maneira como nos relacionamos na Internet, etc.
Talvez seja por toda essa exposição e controle sob os quais todos estejamos forçados a viver, que a maioria das pessoas esteja se sentindo sempre à beira de se tornar instant celebrities.
Tenho notado que em certos casos, as mínimas aparições públicas dos anônimos já têm garantido a alguns (e algumas) o status de aspirantes à fama. Não que tenham algum talento ou virtude (exceto os avantajados atributos físicos, na maioria dos casos) para isso, mas apenas porque a exposição em todas as formas de mídia tem ficado cada vez mais banalizada e fácil.
Nesse ritmo, tem sido comum as pessoas ficarem conhecidas nacionalmente, e até universalmente, por ações simplórias, como comparecer a um velório, prestar depoimento em uma delegacia ou se envolver em episódios de violência e crime.
Começo a ter a impressão de que passou a ser importante apenas aparecer e se fazer notar, mesmo que pelos motivos errados e sem qualquer fundamento.
Já não há mais necessidade do talento inconteste ou do trabalho consistente para que uma pessoa seja respeitada, admirada e propalada na mídia. Hoje, basta estar com a roupa certa (pouca, claro!), na hora certa e no lugar certo, para que a imagem corra o mundo. Também serve a roupa errada e inapropriada, como blusas curtas e justas e minissaias, em situações antes tidas como sérias, como as de cunho policial ou judicial, por exemplo. Tudo vale para não perder o espocar dos flashes e a captura das imagens pelas lentes das inúmeras câmeras sempre a postos. Todos já vivemos num imenso Big Brother. Viva Orwell.

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