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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Por que o som do Mundo Livre S/A é tão indispensável?


Durante o Carnaval, fui a mais um show do Mundo Livre S/A, desta vez no SESC Santana. Como já conheço a banda liderada pelo eclético e criativo Fred Zero Quatro, artista emblemático da cena recifense, a alta qualidade da apresentação não me surpreendeu, mas apenas confirmou os vários motivos que dão suporte à admiração que nutro pelo grupo pernambucano.  
A banda Mundo Livre S/A, liderada pelo
 cavaquinho de Fred Zero Quatro.
A simplicidade e a espontaneidade da banda no palco são dignas de nota, visto que não há qualquer espaço para afetação ou estrelismo. Os diálogos entre eles mesmos, entre eles e a produção e, principalmente, com o público são diretos, bem-humorados e criativos. Ou seja, não ficam nos lugares-comuns dos shows pasteurizados, tão repetitivos e em voga atualmente, nos quais se endeusam, por interesses mercadológicos, sempre as mesmas figurinhas carimbadas e desprovidas de talento. Não há média ou rasgação de seda, a não ser com artistas que realmente sejam talentosos e merecedores de elogios, como Jorge Ben e Chico Science.
O Mundo Livre S/A é formado por excelentes músicos e, desta maneira, a qualidade do seu som é das melhores que podemos contemplar nos dias atuais. Contudo, as letras das canções é que dão o tom diferencial e especial à apresentação da banda. As músicas são na grande maioria divertidas, dançantes e cheias de suingue, mas nem por isso as letras, críticas e engraçadas, deixam de fazer pensar e refletir sobre uma série de temas que não podem estar fora de pauta na sociedade atual.
Resumindo, é um show feito pra dançar e desopilar o fígado, que, além disso, faz com que a plateia saia de lá pensando melhor. Onde está escrito que música para divertir tem necessariamente que contar com letras absurdas ou idiotas, que beiram a debilidade? Como já propôs o Barão Vermelho há alguns anos, pensar e dançar é bastante possível, e o Mundo Livre está aí para confirmar plenamente essa possibilidade.  
Consumismo desenfreado, padrões de comportamento idiotizados e repetitivos, a fé cega e alienada, a supervalorização dos bens materiais em detrimento do verdadeiro crescimento espiritual, além das altas doses de hipocrisia na política e na vida pública, tudo isso e muito mais é criticado e posto em cheque pelas inspiradíssimas canções do Mundo Livre S/A.
Capa do último disco do Mundo Livre S/A, que traz canções
 indispensáveis como Fucking Shit e  Tua  Carne Black Label.
Todas as músicas do Mundo Livre S/A, de todas as épocas e de todos os discos, são indispensáveis e precisariam ser ouvidas com muito mais frequência nas rádios e apresentadas recorrentemente nos canais da televisão aberta. Entretanto, não há interesse algum das redes de televisão aberta em mostrar músicas e artistas de real valor. Os programas das redes comerciais de TV primam apenas por difundir novidades pegajosas, grudentas e imbecilizantes, que além de nada acrescentar à cultura dos brasileiros, ainda os torna mais alienados.
O novo disco do Mundo Livre S/A, Novas Lendas da Etnia Toshi Babaa, é um dos exemplos de obras que precisariam e poderiam ser altamente difundidas, curtidas, dançadas e pensadas, principalmente pelos nossos estudantes, pois o seu teor é exatamente para isso: Ouvir, refletir, inspirar, questionar, sem que com isso não seja possível dançar e se divertir muito também.
O Brasil precisa muito mais da obra do Mundo Livre S/A do que podemos imaginar à primeira vista, mas infelizmente a mídia e a indústria “cultural” continuam dando amplo apoio às letras onomatopeicas e de conteúdos explícitos e diretos, que nenhum trabalho ou questionamento causam aos abandonados neurônios dos ouvintes, muito pelo contrário.    

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Chico Science - A falta que o líder faz


Há quatorze anos perdíamos, precocemente, o grande artista Francisco de Assis França - o inesquecível Chico Science - em um acidente automobilístico.

A falta que o mangue-boy faz no cenário musical brasileiro ainda pode ser sentida até hoje, pois, ao contrário de outros importantes artistas mortos recentemente, Chico Science ainda não havia tido tempo de explorar todo o seu potencial criativo, que era impressionantemente elevado.

Ele foi o líder de um movimento cultural, o mangue beat, que ainda hoje pode ser considerado a última grande revolução no panorama musical brasileiro, além de render frutos. Tudo de novo e relevante que aparece na música brasileira, atualmente, ainda tem alguma ou muita influência das ideias e sacadas geniais de Chico Science e da Nação Zumbi.

Eles surgiram na grande mídia do sul maravilha em 1993, e, desde aquele início, já diziam fortemente a que vinham e quais eram as suas intenções. Vinham para literalmente balançar as estruturas da nossa, àquela altura, insossa produção cultural e musical.

Aquele período era um marasmo só. O rock nacional já havia passado do seu auge. A MPB só mantinha seus grandes nomes. O axé, o sertanejo e o pagode dominavam todas as rádios e canais de Tv à custa de muito jabá das gravadoras. Ou seja, a mesmice e a falta de inventividade reinavam absolutas.

Em meio a tudo isso surge o furacão Chico Science, liderando outras pessoas e bandas também geniais, como Fred Zero Quatro, Otto, Mestre Ambrósio, bem como a própria Nação Zumbi, que ficaria órfã do seu mentor tão cedo e, mesmo assim, continuaria produzindo muita coisa interessante nos anos seguintes.

Li uma declaração do talentoso cantor Seu Jorge, na qual ele afirmava que, naquele início dos anos 90 tinha a intenção de criar uma musicalidade alternativa e diferente, mas que depois de assistir a um show da ainda iniciante Nação Zumbi, sentiu que tudo o que podia haver de mais novo e interessante na música já estava sendo criado por aquele grupo de recifenses. Segundo ele, depois daquela explosão de ideias e sonoridades, tudo o mais ficava parecendo brincadeira de criança.

Para mim, Chico Science foi o último revolucionário da nossa cultura, pois conseguiu, com seu talento criar uma música poderosa, dotada de mensagens e ideias renovadoras. Foi eficiente ao criar letras e músicas que diziam muito. Provou que é possível ser criativo e popular ao mesmo tempo. Provou que inteligência e conscientização cabem e são necessárias para todos, em qualquer contexto.

Além disso, frise-se que ele morreu durante os preparativos para o carnaval de 1997, quando trabalhava arduamente - e por isso corria tanto - para oferecer uma alternativa popular, mas de qualidade, aos tchans e axés da Bahia, que assolavam ininterruptamente os ouvidos de todos naquele período.

Podem notar, todos os talentos verdadeiros que surgem atualmente, de alguma forma, ainda bebem na fonte do inesgotável Chico Science.

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