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quarta-feira, 21 de julho de 2010

Já vivemos o Big Brother de Orwell

A expressão Big Brother, atualmente tão pobremente difundida em todo o mundo, na verdade foi criada pelo escritor inglês George Orwell, em seu livro "1984", lançado em 1949.
Mal sabia Orwell, que sessenta anos após a publicação de sua obra prima, o termo seria usado de maneira tão vulgar, e para representar coisas que muito pouco, ou nada, têm a ver com a rica realidade fictícia criada por ele.
Ao ler "1984", logo percebemos a forte crítica social e política engendrada por Orwell. Antes da metade do século XX, o autor estava muito preocupado com os sistemas políticos totalitários e com todas as suas formas de controle dos cidadãos. Por isso, muito criativo e visionário que era, imaginou toda uma sociedade vivendo sob as ordens e o controle do Grande Irmão, que chegava a ter meios e mecanismos para descobrir até mesmo o que os cidadãos pensavam. Era impossível fugir ao campo de visão do Grande Irmão. E era essa, acredito, a principal sensação aterradora que Orwell queria passar em sua criação.
Hoje, no entanto, como já disse, a expressão de Orwell é sim muito conhecida em todo o planeta, mas, infelizmente, talvez pelos motivos errados e muito distantes daqueles pensados pelo escritor.
Big Brother se tornou uma franquia televisiva de reality show, cujos gosto e finalidade são completamente duvidosos e discutíveis.
De qualquer forma, atualmente, a expressão tem sido usada - aí sim com alguma familiaridade com a obra de Orwell - sempre que as pessoas se sentem vigiadas e constrangidas pelos moderníssimos sistemas de segurança implantados de diversas formas, em variados ambientes e situações da vida moderna.
Hoje, somos vigiados ostensivamente por câmeras de televisão, de trânsito, por CFTV's de empresas e instituições públicas, por rastreadores via satélite, por ligações que fazemos e recebemos no celular, pela maneira como nos relacionamos na Internet, etc.
Talvez seja por toda essa exposição e controle sob os quais todos estejamos forçados a viver, que a maioria das pessoas esteja se sentindo sempre à beira de se tornar instant celebrities.
Tenho notado que em certos casos, as mínimas aparições públicas dos anônimos já têm garantido a alguns (e algumas) o status de aspirantes à fama. Não que tenham algum talento ou virtude (exceto os avantajados atributos físicos, na maioria dos casos) para isso, mas apenas porque a exposição em todas as formas de mídia tem ficado cada vez mais banalizada e fácil.
Nesse ritmo, tem sido comum as pessoas ficarem conhecidas nacionalmente, e até universalmente, por ações simplórias, como comparecer a um velório, prestar depoimento em uma delegacia ou se envolver em episódios de violência e crime.
Começo a ter a impressão de que passou a ser importante apenas aparecer e se fazer notar, mesmo que pelos motivos errados e sem qualquer fundamento.
Já não há mais necessidade do talento inconteste ou do trabalho consistente para que uma pessoa seja respeitada, admirada e propalada na mídia. Hoje, basta estar com a roupa certa (pouca, claro!), na hora certa e no lugar certo, para que a imagem corra o mundo. Também serve a roupa errada e inapropriada, como blusas curtas e justas e minissaias, em situações antes tidas como sérias, como as de cunho policial ou judicial, por exemplo. Tudo vale para não perder o espocar dos flashes e a captura das imagens pelas lentes das inúmeras câmeras sempre a postos. Todos já vivemos num imenso Big Brother. Viva Orwell.

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