quinta-feira, 29 de abril de 2010

Twittando asneiras

Hoje em dia, qualquer pessoa pode expor ao Mundo seus pensamentos e ideias em até 140 caracteres. Para o caso das pessoas que realmente tem algo a dizer, o Twitter passa a ser uma considerável ferramenta de comunicação e interação. No entanto, percebo que o quantidade de baboseiras e asneiras "publicadas" na web é uma coisa alarmante. Como tudo na vida, o Twitter também precisaria ser usado com parcimônia e bom senso. Mas, claro, bom senso não é um artigo muito abundante na praça. Aliás, anda bastante escasso nos dias que correm. Nessa toada, segue o bombardeio de frases incompreensíveis e absurdos postados a esmo! É uma verdadeira saraivada de informações inúteis, diálogos "tronchos" e repetitivos. Piores ainda são os "retweets", quando o "twitteiro" não tem sequer condições de criar suas próprias besteiras, e se vale das "ideias" alheias - muitas vezes também já estapafúrdias na origem - para poluir a rede. Atenção: Por favor, não confundam "xaropices" com bom humor! Não sou nada contra as tiradas e sacadas bem-humoradas, até porque são provas incontestes de inteligência e perspicácia dos seus autores. Mas é lamentável que um meio de comunicação tão poderoso seja utilizado com tanta intensidade apenas para a propagação de "pensamentos vazios" e "informações" que não trazem nada de útil às pessoas em geral. Deveríamos, isso sim, lutar para que o Twitter fosse usado como instrumento de troca de ideias e informações dotadas de conteúdo útil, que servissem à conscientização e organização das pessoas em torno dos muitos temas relevantes em pauta hoje em dia. Tenho certeza, e vejo muitos casos em que pessoas utilizam essa ferramenta para discutir e falar sobre temas mais sérios. Contudo, essas discussões mais profícuas ficam relegadas ao segundo plano. Infelizmente, a grande maioria vê as ferramentas de interação virtual apenas como um canal para lançar ao mundo toda e qualquer bobagem que lhe passe pela cabeça. E o pior, se a pessoa que dispara a asneira na rede tem algum respaldo popular - é "artista" ou "celebridade instantânea" - aí sim é que obtém uma enormidade de respostas e comentários. Ou seja, a asneira é elevada à enésima potência, como se fosse algo importante e digno de atenção. Outro ponto espantoso é o número de seguidores que essas ditas celebridades alcançam no Twitter. Chovem puxa-sacos aos twitteiros renomados, ainda que postem apenas boçalidades, fofocas e coisas que não interessam efetivamente a ninguém. É tão comum nos depararmos com postagens que informam o horário em que a pessoa foi dormir. Ou então, aquilo que a pessoa comeu na hora do almoço. Ou ainda que passou horas no salão de beleza! Francamente, o mundo precisa de assuntos muito mais importantes sendo discutidos na rede do que a cor da cueca de qualquer zé-mané!

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Precisa-se de homens-bomba

Enquanto uma parte menor da humanidade perde seu tempo dando valor desmedido ao próprio ego e a muitas coisas absolutamente desimportantes e fúteis, outra parte, essa bem maior, perde seu tempo nas degradantes condições dos transportes coletivos, dos hospitais públicos e das burocráticas e preguiçosas repartições, que deveriam prestar serviços aos cidadãos. Perdem também seu tempo nas vagarosas filas dos bancos, que fazem questão de andar bem lentas e desrespeitosas para aqueles que pouco têm. Aos que muito têm, os bancos reservam atendimentos preferenciais, com nomes pomposos, afrancesados, americanizados. Mas isso é para poucos. Apenas personalidades merecem tratamentos diferenciados e atenciosos. Personalidades com cifras de muitos zeros à direita em suas contas e aplicações. Não, não é necessário que as personalidades a que me refiro sejam pessoas honestas, decentes, corretas. Nada disso, basta às personalidades ter o poderio econômico. Só isso. Caráter, decência, respeito, são coisas que não valem mais nada atualmente. Hoje, não é mais importante ser um homem de bem. Hoje, o que vale é ser um homem de bens. A inércia é imensa. A pasmaceira é enorme. As pessoas sofrem absurdos cotidianos completamente caladas. Não reclamam, não protestam. Não se organizam para reivindicar os direitos mais básicos. Atribuem seus dramas à vontade de Deus. Será que Deus trataria de maneira tão desigual os seus filhos? Estamos chafurdando no caos. Estamos enterrados na lama, como sabiamente já disse Chico Science. Uma das últimas e poucas cabeças pensantes que realmente disse e mostrou a que veio. Pena ter nos deixado tão precocemente. De um lado, esnobismos, ostentações e demonstrações de poder daqueles que só se preocupam com isso na vida. De outro lado, a total falta de traquejo para a vida em sociedade e para o senso de justiça de enorme camada da nossa população. Aceitando todas as desgraças e mazelas como se fizessem parte da normalidade e da paisagem. Aceitando bovinamente que alguns têm e nasceram para ter, enquanto outros nasceram para sofrer e para ser explorados. Como se fosse aceitável admitirmos que existem cidadãos de diferentes classes, de diferentes castas. Que só por um punhado de ouro, alguns possam se sobrepor aos outros, impondo a estes a sua vontade. Precisamos urgentemente de homens-bomba, que venham explodir com essas convenções tão arraigadas, que venham sacudir esse status quo tão viciado, que venham exigir a sua parcela de dignidade e respeito. Precisamos de homens-bomba pensantes, que questionem as unanimidades burras. Que ousem propor outros caminhos. Que ousem perguntar: Por que é que tem que ser necessariamente assim e não de outro jeito? Precisamos de homens-bomba que detonem os preconceitos dos bem-nascidos, arrebentem com a empáfia e a arrogância daqueles que se sentem, por qualquer motivo, mais merecedores de respeito e homenagens que os outros mortais. Precisamos urgentemente de homens-bomba que dinamitem todas as atrocidades cometidas pelos homens contra os próprios homens. Precisamos de homens-bomba que acendam o estopim da arrancada para uma nova forma de viver, mais fraterna, mais solidária, enfim, mais humana.

Obs.: Post inspirado no poema-protesto homônimo, de Sandra Lacerda, que teve a ideia de propor a ação de homens-bomba do bem contra toda a inércia atual da nossa sociedade. Em uma situação prática e cotidiana, numa estação de metrô lotada, ela viveu o desprazer de sentir na pele o descaso com que o povo é tratado. E, pior, constatar que nenhum dos presentes ao menos cogitava em protestar, questionar ou se perguntar por que aquela situação estava acontecendo.

sábado, 27 de março de 2010

Sobre cachorros e gente (O que é politicamente correto?)

Nestes tempos, vivemos a ditadura do politicamente correto. Particularmente, tenho uma opinião bem formada a respeito. Considero que todos devemos ser exemplar e completamente politicamente corretos nas questões de cidadania, relações humanas, política, respeito ao próximo e solidariedade.
Para mim, ser politicamente correto significa fazer parte da sociedade de maneira cidadã e engajada. Lutar pela melhoria dos aspectos coletivos de nossas vidas e, principalmente, ter atitudes que nos levem, todos, a viver melhor e mais humanamente.
Gosto de ser politicamente correto ao respeitar a ordem de uma fila, bem como fazer com que os outros a respeitem. Gostaria muito de viver numa sociedade - e tento fazer a minha parte para isso - em que as pessoas não se maltratassem tanto, ou até se matassem, por pequenas questões idiotas de trânsito, que não levam a nada de melhor para ninguém e são recheadas dos mais baixos níveis de prepotência, ignorância e violência a que o homem pode descer.
Acho imprescindível que conseguíssemos evoluir para um um nível de convivência social em que fosse regra, e não exceção com é hoje, que os cidadãos se respeitassem mutuamente, bem como fossem respeitados pela classe política e pelos detentores do poder econômico.
O que vemos hoje em dia é o completo desrespeito e descaso entre a maioria da sociedade dita organizada brasileira.
Haja descaso nos atendimentos ao cidadão, seja em hospitais, escolas, repartições públicas e serviços essenciais prestados por concessionários dos governos, entre outros. Haja descaso nas relações comerciais, que todos temos que fazer para a manutenção de nossas vidas cotidianas. Haja descaso da grande maioria dos representantes do povo para com o próprio povo que os elegeu. E haja, em todos esses meios, relações deturpadas, promíscuas e corruptas, que, em última instância, só geram danos e lesões ao cidadão comum, que é prejudicado e fica praticamente indefeso na maioria dessas situações.
Penso que, para diminuirmos tantos atos e comportamentos politicamente incorretos e daninhos ao povo, esse próprio povo, do qual fazemos parte, precisaria dar a sua contribuição, agindo corretamente, e exigindo que todos o fizessem, nas situações comuns, que todos vivemos nos nossos dias. Todas as mazelas e desrespeitos que sofremos e vemos os outros sofrerem são oriundos do próprio seio da nossa sociedade. Não dá para achar que só os outros são errados e que o mundo é assim mesmo. Todos nós somos errados quando desrespeitamos os espaços reservados aos idosos e aos deficientes físicos. Quando paramos o carro sobre uma faixa de pedestres. Quando damos um jeitinho de burlar uma fila e levar vantagem. Aliás, vantagem é o que a maioria gosta de levar em cima dos outros. Como já dizia o velho Gerson: "O importante é levar vantagem, certo?"
Acho que só vamos sair desse poço, quando todos nós conseguirmos levar vantagem juntos. Mas uma espécie de vantagem benéfica, democrática, que contemple a todos os cidadãos brasileiros. Não apenas às minorias oportunistas.
Falei tudo isso, para tentar esclarecer que há também um tipo de pensamento politicamente correto xiita com o qual não concordo. Um estado de espírito politicamente correto muito chato, defendido principalmente por aqueles que, no meu entender, exageram em certas questões, chegando ao ponto de, em muitos casos, considerar um ser humano menos relevante do que um cachorro ou uma árvore.
Não são poucos os cidadãos, de classe média principalmente, que incorrem em muitas das atitudes anti-cidadãs acima expostas, mas que, de forma ultra aguerrida, se arvoram a paladinos da defesa dos animais e da natureza, passando por cima, às vezes, até das necessidades e da vida de outros seres humanos.
Eu penso sim que todos os animais, plantas e recursos naturais merecem respeito e tratamento digno. Contudo, ainda acho que, no limite, mais vale a vida e os interesses de uma pessoa do que os de um animal ou uma árvore.
No local em que trabalho, recentemente, um bom e prestativo vigia foi altamente repreendido e criticado por pesquisadores e alunos de pós-graduação, por ter tido que, no exercício de suas atribuições, dar um "chega pra lá" num cachorro que queria entrar no prédio em que fazia a vigilância, um local de pesquisas e aulas. O cachorro insistente avançava no vigilante e se mostrava feroz. Ele precisou se desvencilhar do cão com um leve chute. Atitude que lhe custou muitos aborrecimentos e cobranças, pois pessoas "muito bem preparadas intelectualmente", que assistiram a cena, se arrogaram no direito de tomar satisfações do vigia.
O que essas pessoas queriam que o rapaz fizesse? Que se deixasse morder pelo cão? Que deixasse o cachorro perambular livremente pelo prédio?
Achei esse um caso prático da atual inversão total de valores. Não concebo alguém prestigiar um cachorro em detrimento de um humilde trabalhador no cumprimento da sua função.
E tanto o vigia estava certo, que no dia seguinte, um desses cachorros que circulam naquela área avançou num professor e o mordeu.
Entendo que devemos valorizar e prestigiar as pessoas de bem sempre.
Estou farto de pessoas ditas politicamente corretas, que se preocupam extremamente com a destinação dos resíduos e com a proteção de plantas e animais, mas não parecem dar a mínima para a melhoria das condições de vida de enorme parcela da nossa sociedade, que vive excluída de tudo. Acho que ecologicamente corretíssimo seria, primeiramente, tratarmos de dar condições dignas de vida e educação a todas as pessoas, pois isso fatalmente também traria no seu bojo uma ampla e sensível melhoria na relação dos homens com o meio ambiente.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Reumanize-se

Depois de andar meio cansado, principalmente das "pessoas de alma bem pequena, remoendo pequenos problemas", estou de volta em doses homeopáticas. Agradeço demais aos amigos que deram força para que eu pudesse retomar a caminhada.

Tem horas que a gente se cansa mesmo de "tanta babaquice, de tanta caretice e dessa eterna falta do que falar", mas, "vamos pedir piedade, senhor piedade, pra essa gente careta e covarde. Deus lhes dê grandeza e um pouco de coragem".
Não sei porque, mas hoje acordei tendo o Cazuza como porta-voz. É óbvio que é porque ele sempre falou aquilo que muitos queriam falar, mas nunca tiveram coragem. Inclusive eu.

Mas, tenho certeza, se Cazuza estivesse vivo hoje, estaria certamente ainda mais revoltado com os rumos que tem tomado a nossa querida humanidade. Ele sempre foi muito contrário à hipocrisia e à falta de autenticidade no ser humano e, atualmente, isso é o que mais presenciamos no nosso cotidiano. Está certo que o ser humano sempre destilou suas doses de veneno, bem como agiu, muitas vezes, de maneira canalha e egoísta, mas, agora, isso tem sido muito recorrente, quase regra.

Enganar, trapacear, enrolar e mentir para se dar bem em cima dos outros têm sido práticas corriqueiras (e tidas por muitos como válidas!) em nossa sociedade de ultra-consumo.

Estamos modernos demais em alguns aspectos de nossa vidas, mas estamos regredindo aos períodos pré-históricos em outros. Temos colocado muitas coisas e interesses acima do próprio ser humano. E acho isso lamentável. Reumanizemo-nos urgentemente!
Precisamos passar a ter novamente (se é que já o tivemos) o ser humano como ponto central em todas as esferas de nossas vidas.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Capital X Cidadania

Estava eu fazendo a minha corrida matinal de domingo no famoso elevado paulistano conhecido como Minhocão, quando me deparei com mais uma situação diferente.
Antes de narrar os fatos, é preciso lembrar que o citado elevado é célebre por ter sido construído pelo então prefeito Paulo Maluf. É uma obra horrenda, que passa sobre importantes avenidas centrais, ficando no nível dos primeiros andares dos prédios daquelas vias. Ou seja, são 2,5 Km em que as pessoas abrem as janelas e podem apreciar aquele mar de veículos desfilando ininterruptamente à sua frente, bem como respirar aquele ar "saudável" que o pesado tráfego proporciona.
Essa construção já foi objeto de muita polêmica, principalmente nas vésperas das eleições, no entanto, nunca melhoraram nada no local. Já falaram em revitalização, em reurbanização e até em demolição do monstrengo, mas sempre foram apenas palavras.
No entanto, a única utilidade razoável daquela via pública se dá nos domingos e feriados, quando é fechada ao trânsito de veículos e funciona como um improvisado espaço de lazer. Daí as minhas corridas e caminhadas por lá.
Apesar de ser muito frequentado nesses dias, o Minhocão jamais contou com qualquer infraestrutura maior, ou serviços da prefeitura, no sentido de torná-lo mais humano e receptivo para os pedestres e usuários. Apenas uma viatura da PM circula pelo local, quando muito.
Mas, voltando à vaca fria, corria eu nesse domingo, quando avistei uma equipe de filmagem, cujos seguranças, munidos de HT´s, "pediam delicadamente" que nós passássemos para a outra via. Logo vi o motivo: Estavam gravando mais um comercial de automóvel. Dessa vez era um carro de alto luxo, de uma montadora japonesa.
O problema é que o carro utilizava uma das pistas para andar em alta velocidade, e eles não conseguiam sinalizar todo o trajeto do local. Em outras palavras, a situação gerava risco às crianças, aos transeuntes, enfim, a todos os que pretendiam curtir um espaço teoricamente sem a presença de carros, muito menos correndo e manobrando daquela maneira.
Mais uma vez, como em tantas outras, o povo vê o suposto espaço público tomado pelos interesses econômicos de grupos privados, sem sequer ser consultado a respeito. Além de sermos tratados pelos gorilas da segurança como intrusos. A população é vista como intrusa até num dos poucos espaços públicos que supostamente estaria livre do trânsito e disponível para algumas formas de lazer mais pertinentes às pessoas simples e trabalhadoras, que têm no domingo talvez o único dia de folga.
Ao perguntarmos à equipe de filmagem sobre aquela interrupção, fomos informados de que eles têm autorização da prefeitura para utilizar o espaço. Se assim é, a prefeitura deveria dar maior respaldo para que as coisas não caminhassem ao bel prazer dos produtores do comercial.
Além disso, suponho que a prefeitura cobre a devida taxa pela utilização de espaço público. Nada mais justo de que as taxas cobradas por tais eventos naquele local (Que não são poucos, diga-se) fossem ao menos em parte revertidas em benefício da população local, humanizando um pouco o esquisito Minhocão.
Se tão árido ele já merece tanta atenção das pessoas, imaginem se fossem disponibilizados banheiros químicos, serviços de saúde, monitores e orientadores para atividades físicas, música ambiente propícia à prática de esportes, etc...
Infelizmente, a cidadania tem cada vez mais sucumbido aos interesses maiores, que geralmente não trazem nada de positivo à população. Neste caso específico, os únicos que ganharam com aquelas gravações foram a equipe de produção, a montadora e as revendedoras daquele possante veículo de luxo, que nunca vai fazer parte da vida de uma pessoa comum.
O poderio econômico sempre solapa qualquer manifestação ou anseio popular. Apenas fazendo um paralelo, acho absurdo no Carnaval, principalmente em Salvador - mas também no resto do Brasil, nas famigeradas micaretas - as vias públicas serem loteadas por trios elétricos e "artistas de sucesso" para turistas endinheirados e desocupados, em total detrimento da população local, que em muitas vezes é tratada como totalmente marginal e nada bem-vinda aos locais dessa presepada.
Mais uma vez é tirado o direito de ir e vir em vias públicas do cidadão local, apenas porque ele não pode comprar o caríssimo abadá da "festa".
Já é passada a hora de que tais situações passem a reverter em benefícios práticos às populações locais. Alguma compensação os senhores do Capital devem dar ao povo tão usurpado em seus direitos.
Voltando do Minhocão, vi um rapaz grafitando uma bela obra na Rua da Consolação. A cena compensou um pouco a minha inquietação anterior.
E já que o assunto é Cidadania e sua usurpação pelos donos do poder, aproveito o ensejo para fazer minha homenagem aos grafiteiros (não aos pichadores grotescos) e às suas obras e mensagens, que felizmente têm se tornado cada vez mais frequentes em nossas vias públicas. São um verdadeiro oásis de inteligência, bom humor e sagacidade em meio a um mar de mesmice, propagandas e veículos engarrafados.
Pretendo, e já faz tempo, fazer um post somente sobre os grafiteiros e suas obras, mas ainda não recolhi material suficiente. Longa vida ao grafite como forma de conscientização e questionamento sociais. A foto que ilustra esse post é de um grafite que foi feito por esses dias. Mais verdadeiro, impossível. Alguém, de alguma forma, tem de falar a verdade.

PS: Não conheço o autor desse grafite, mas terei o maior prazer de dar os créditos, caso receba essa informação.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Massification Society

Não sei se vocês perceberam, mas estamos vivendo num mundo em que as pessoas fazem quase tudo sempre igual e ao mesmo tempo.

Como miquinhos amestrados, estamos sendo, todos, orquestrados por poderosos grupos econômicos, empresas, meios de comunicações e detentores das mais modernas tecnologias.
Apesar de nos acharmos tão livres, leves e soltos, estamos, isto sim, sendo o tempo todo compelidos a agirmos desta ou daquela maneira, a usarmos esta ou aquela grife, a comprarmos este ou aquele carro, a assistirmos este ou aquele filme, a ouvirmos esta ou aquela música...

Os comportamentos têm cada vez mais sido ditados pela televisão e pela internet. As poderosas redes televisivas dão a pauta de como a sociedade vai se comportar naquele período.

Pensem um pouco sobre o cronograma de vida e atividades que nos impõem durante o ano:

Em janeiro, ao mesmo tempo que falam em férias escolares, dando sugestões de onde ocupar os pimpolhos, falam também sobre IPVA, IPTU e material escolar. Sempre a mesma lenga-lenga.

Depois vem o Carnaval, e só se fala nesse assunto, diuturnamente. Mostram inúmeros carros descendo para o litoral, porque ficou estabelecido, sabe Deus por quem, que Carnaval é para ser curtido na praia. Desfiles, fofocas sobre as rainhas de bateria e suas infantilidades. Quantos mililitros de silicone as musas colocaram. Quanto malharam. Com quem estão namorando. Haja saco. A música então, só samba-enredo de manhã até a noite. Um porrilhão de surdos e cuícas massacrando diretamente os nossos pobres tímpanos.

Após o Carnaval, o assunto passa a ser o início das aulas e o aumento do trânsito já caótico, devido às mamães que insistem em parar em fila dupla na frente dos colégios dos rebentos.
Fala-se também dos trotes aplicados aos calouros nas faculdades e das eventuais atrocidades que essa prática costuma trazer todos os anos.

Abril, mês da Semana Santa. E a mídia já começa a insuflar a população para as viagens ao interior. Assim como o Carnaval tem que ser curtido na praia, a Semana Santa deve ser aproveitada no interior. É outra regra que assola o nosso inconsciente coletivo.
Por que o cara não pode curtir o Carnaval no campo ou na montanha e a Semana Santa na praia? Onde está escrito que essa norma não pode ser subvertida? Eu, particularmente, todas as vezes em que inverti os roteiros pré-programados pela massificação onipresente, me dei extremamente bem, ficando em lugares tranquilos e menos badalados.

E assim passa o ano: Dias das mães, férias de julho, dias dos pais, dias das crianças... e, finalmente, o auge da mesmice e do comportamento clônico: Natal e Ano Novo. Aí é que o caldo entorna de vez. Graças a Deus, passamos por esse período recentemente e vai demorar um pouco para chegar novamente.

Aí sim, a micaiada amestrada se lambuza de tanto fazer a mesma coisa junta e igual, exatamente ao mesmo tempo.

Todo mundo se fodendo junto nos centros de compras, sejam shoppings chiquérrimos e metidos à besta, ou os centros populares de varejo, como a 25 de Março em São Paulo, ou o Sahara no Rio de Janeiro.

A desinteligência coletiva é tanta, que todo o ano, passado o Natal, as lojas ficam às moscas, com liquidações de até 70% de desconto. Mas isso, só alguns poucos pensantes e autênticos conseguem vislumbrar e aproveitar. Para eles, tiro o meu chapéu.

E também, e principalmente, nesse período, a ditadura comportamental assola a todos.
O Natal DEVE ser passado em família, em volta do peru e próximo à árvore de Natal.
O Ano Novo DEVE ser passado na praia, de branco, pulando sete ondinhas e comendo romã. Claro que depois de suportar as 10 horas de tráfego pesado e engarrafamento, para só então poder pisar na areia suja e contaminada.

Não sou contra a alegria, contra as viagens e muito menos contra as deliciosas reuniões familiares. Não sou contra dar presentes a quem amamos ou admiramos. Muito pelo contrário.
Sou contra, isso sim, o fato de sermos impingidos a fazer isso sempre que o patrão mandar.

Não sou contra a música. Por sinal, adoro música. Mas precisa ser a música que eu escolhi para curtir. Não aquela que toca à exaustão nas rádios e na TV.

Curto tudo que há de bom na vida, mas deve ser tudo aquilo que represente algo de bom para mim, para minha família e para a sociedade em geral. Não o que nos empurram goela abaixo durante o ano todo.

Acho que só a educação séria e comprometida das nossas crianças pode fazer com que, no futuro, passemos a ter mais cidadãos pensantes, atuantes e questionadores. Que não engulam, sem avaliar ou cogitar, todo o lixo e todas as regras de comportamento que nos são delicada e discretamente impostas.


Créditos:
A imagem de Homer Simpson, que ilustra este post, foi retirada do blog The Gong Show.
Pesquisando imagens sobre mesmice, me deparei com o blog Humor em textos, de Paulo Tamburro, cujo post muitíssimo bem humorado sobre este tema pode ser lido aqui.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Cabeça em manutenção

Próximo dos 45.000 Km de rodagem, resolvi levar meu cérebro e meu coração para a revisão periódica. A última foi feita com 35.000 Km.
É o momento de reavaliar conceitos, opiniões, pontos de vista. Guardar o que presta e jogar fora aquilo que não serve mais.
Preciso lubrificar os neurônios, balancear os sentimentos, alinhar o coração.
Afinal de contas, antes da longa viagem de 2010, é preciso estar com o check-up em dia.
A única peça que parece intacta é o odômetro da contramão. Esse parece que ainda vai continuar muito operante após a revisão.
Recentemente, li em um blog amigo que não entendiam o que poderia significar "Altavolt na Contramão". Fiquei preocupado. Acho que estou sendo menos claro do que sempre pretendi.
E isso "estartou" o processo de aferição de parâmetros. Tudo que eu sempre pretendi foi ser claro nos meus conceitos e ideias. Se não me entendem mais, é hora de baixar oficina.
Em breve, voltarei zerado.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Aí vai o meu cestão de Natal para vocês

Nesta época de muitos jingle bells, além de muitas ladainhas e tradições repetidas quase à exaustão, aproveito o ensejo para enviar a todos os incautos, que ainda se arriscam por estas paragens, os meus mais sinceros votos de muita e plena saúde por toda a vida. É claro que estendo os votos aos vossos amigos, parentes, enfim, a todos aqueles que vocês conheçam e considerem.
Acho que saúde é o maior e mais precioso bem que podemos desejar sinceramente a alguém, pois é o pressuposto básico para que busquemos e consigamos atingir todas as nossas metas pessoais. Muito embora sejamos bombardeados por infinitas necessidades criadas para nós a todo o momento, e muitos achem que não podem viver sem tais novidades, sejam lá quais forem, isso é pura ilusão. Nada na vida é importante sem saúde. Como dizia o bordão, saúde é o que interessa... o resto não tem pressa!
Acho também muito importante lembrar e celebrar o grande aniversariante do dia 25 de Dezembro. Na minha concepção, talvez o maior, melhor e mais completo ser humano que já passou por este planeta. Isso sem a menor demagogia religiosa, pois não sou adepto fervoroso de nenhuma religião, apenas valorizo Jesus Cristo como o homem que mais ensinamentos deixou neste mundo e o que mais fez por todos nós. ELE sim, completamente digno de ser seguido, e de ter as suas ações e palavras levadas por todos aos quatro cantos do mundo.
Por outro lado, infelizmente, tenho certeza de que, neste período natalino, considerável parcela da população brasileira estará muito longe de amigos secretos, lembranças, presentes, árvores de Natal e festas de confraternização. Receberão apenas e tão somente um singelo cestão de final de ano... cestão fudidos!
Se pararmos para pensar, são essas pessoas que precisam sim de bens materiais neste final de ano. Não nós, pessoas com acesso à Internet e a toda essa tecnologia. Nós já temos tudo o que precisamos para uma vida digna, e em muitos casos, até mais do que merecemos. Seria muito interessante que todos nós passássemos a pensar e a agir para minimizar as enormes diferenças sociais existentes no Brasil. Mas isso durante todos os meses, e não só no período de festas.
Feliz Natal e excelente 2010 para todos, mas todos mesmo! São meus sinceros votos!

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Programa Hipocrisia Zero

Um dos meus lemas neste blog é a busca incessante e insana pela hipocrisia zero. No entanto, muitos podem não compreender exatamente o que este doidivanas que vos fala pretende com esse inalcançável objetivo. Uma vez que é sabidamente inalcançável, para que se desgastar com essa luta inglória?

Vou procurar esclarecer. É claro que, adulto e vivido que sou, sei que jamais iremos deixar de conviver com a hipocrisia neste mundo em que por hora habitamos.

Sei que muitos vão dizer que a hipocrisia é inerente ao ser humano. Que faz parte da vida moderna. Que sem uma boa dose de hipocrisia não se vive, etc. etc.

Apesar de saber e vivenciar tudo isso, sou um cara chato, que, paradoxalmente, na medida em que foi envelhecendo, foi ficando com a tolerância cada vez mais baixa para a mentira e a desfaçatez humana.

Por tudo isso, acredito fortemente que temos condições, sim, de reduzir as emissões de hipocrisia no nosso meio ambiente.

Eu nem falo de política, meio em que a hipocrisia nada de braçada e já começa a se estabelecer (pasmem!) como o padrão de conduta aceitável e esperado de todos os políticos.

É lamentável chegarmos à conclusão de que elegemos os políticos para que - no mínimo e na melhor das hipóteses – venham a enganar e iludir todo o seu eleitorado.

No dia a dia, temos visto, presenciado e sofrido muito com as doses cavalares de hipocrisia que andam por aí. O puxa-saquismo desenfreado. A ultra-valorização das pessoas, empresas e instituições que detêm o poder econômico e político nos seus respectivos campos de atuação. A bajulação desmedida daqueles que supostamente - nesse nosso mundo tão equivocado – valem ou representam mais que os outros.

Não vejo, sinceramente, nenhum sentido em colocarmos seres humanos em patamares diferentes de importância, por mais que isso seja a moeda corrente que nos impinjam hoje em dia. Nada, no meu entender, justifica que uma pessoa seja tratada ou tenha mais privilégios do que outra.

Luto, isto sim, para que todos, absolutamente todos, sejam tratados com respeito e civilidade, independentemente da posição que estejam ocupando em nossa sociedade.

Entendo que a verdade, a sinceridade e o respeito mútuo devam pautar toda e qualquer relação em que estejamos envolvidos, seja ela sentimental, profissional, familiar, comercial e, claro, por último, mas não menos importante, no exercício da nossa cada vez mais combalida cidadania.

Apesar de ingênua, e admito isso, a minha luta também é para que tenhamos cada vez mais relações e contatos em que a mentira, a desfaçatez e a falsidade deixem de pairar, onipresentes. Que tenhamos o direito de não gostarmos e de não termos afeição por determinadas pessoas, mas que isso possa ser colocado e vivido, sem maiores traumas, e que apesar das antipatias e reservas, mantenhamos relacionamentos justos e imparciais com elas.

Acho lindas as manifestações de carinho e apreço pelos amigos de verdade. Porém, considero que as homenagens devam ser sempre verdadeiras e sinceras. Jamais vocês me verão elogiando ou enaltecendo pessoas a quem não julgo verdadeiramente merecedoras de tais honras. Os meus grandes amigos e ídolos trato com carinho, respeito, justiça, amor e amizade. Os meus colegas e pessoas menos queridas, trato com respeito e justiça. Simples assim.

Tenho certeza de que todos viveremos infinitamente melhor num mundo menos hipócrita e mais sincero. Precisamos resgatar as crianças que temos dentro de nós. Elas são mestras na arte de viver com verdade e sem hipocrisia.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Quero dar panetones para todos!

Não sei porque, mas nesse final de ano fiquei com o espírito solidário mais aflorado e resolvi que vou arrecadar todos os fundos que conseguir para gastar tudo em panetones e sair distribuindo para todos os milhões de carentes do Brasil!
Como sou muito tímido e reservado, não vou querer alardear as minhas intenções para ninguém! Vou embolsar tudo o que puder em nome de uma causa nobre e digna: repartir o santo panetone de final de ano.

Confidenciei a um grande amigo as minhas ideias solidárias e ele prontamente tentou me demover delas. "Podem interpretar mal". Afirmou ele. "Além disso", perguntou, "já imaginou se algum espírito de porco resolve gravar ou filmar as entregas de dinheiro dos colaboradores? Como você vai se explicar? No mundo-cão em que vivemos, a última coisa que as pessoas vão achar é que você está arrecadando fundos à sorrelfa para ajudar os mais necessitados! Pense bem. Você vai auferir boladas em dinheiro vivo. Como vai disfarçar esse dinheiro? Vai guardar na cueca, nas meias, aonde mais, criatura?"

Diante das questões pertinentes do meu amigo, refreei um pouco o meu espírito natalino. É verdade. Se alguém mal-intencionado, algum desafeto, perceber a minha movimentação suspeita durante a arrecadação, pode fazer falsas ilações e tentar registrar o suposto caixa 2 para posteriormente me comprometer com as autoridades e com a imprensa.

Como é difícil ser solidário no Brasil. A gente quer ajudar, mas as pessoas são muito maldosas. Veem más intenções em tudo e em todos. Mas, puxa vida, quantos panetones eu conseguria distribuir se obtivesse doações da ordem de R$ 500 mil, 1 milhão? Seria panetone pra dedéu! Muita gente humilde talvez ficasse até com indigestão de tanto panetone. Ah, e se sobrasse algum, acho que os irmãos da igreja não se incomodariam se eu também fizesse uma linda ceia para o povo, quer dizer, o povo lá de casa, que ninguém é de ferro, né?

Além do mais, em último caso, se registrarem qualquer movimento meu que os outros possam achar suspeito, tenho ainda a possibilidade de alegar que o gravador ou que a filmadora estão apresentando os registros truncados e que aquilo não é exatamente o que parece ser. Pra tudo tem um jeito na vida, menos pra morte.

Quer saber? Ninguém me segura! Vou arrecadar bufunfa dos empresários até dizer chega! Vou abarrotar todo o meu terno, minhas meias, minhas cuecas e o escambau! Este ano estou solidário demais! Quero me arrebentar de distribuir panetones aos pobres! A solidariedade franca e desinteressada não pode ser cerceada por temores mesquinhos. A esperança precisa vencer o medo. Fui!

sábado, 21 de novembro de 2009

A total dependência do automóvel

Nos dias atuais, ouvimos falar o tempo todo de sustentabilidade, preservação do meio ambiente, diminuição da poluição, reciclagem dos resíduos, economia de água potável, e uma série de tantos outros mantras ecologicamente corretos, cantados em todos os lugares, como uma incessante ladainha.

No entanto, a maioria esmagadora dessas pessoas, que vivem dando lição de moral em todo mundo, jamais deixa de usar seus automóveis por um instante que seja. Se precisam ir à padaria, a duas quadras de casa, vão de carro. Se precisam ir pegar o filho na escola, a um quilômetro de casa, vão de carro. Existem pessoas (quase todas) completamente dependentes do carro para viver, como se este fosse uma extensão do próprio corpo. Mesmo com um trânsito cada dia mais caótico e estressante, poucos são os lúcidos e corajosos que buscam alternativas para a prisão sobre quatro rodas.
uitos reclamam dos males causados pelo sedentarismo, mas jamais se dispõem a caminhar um pouco mais. Pouquíssimos utilizam bicicletas, até porque ainda faltam ciclovias e condições seguras de tráfego para elas. Mas ninguém está muito preocupado em criar ou lutar para melhorar tais condições. É muito comum ouvirmos as pessoas falarem no dia a dia que não conseguem fazer nada sem carro, que o veículo é imprescindível na vida urbana moderna, que o sistema público de transportes não funciona. Podem até ter certa razão, dependendo da situação, mas, mesmo assim, existe muito exagero e muito comodismo por trás dessas afirmações corriqueiras.

Poucos se dispõem a levantar a bunda da cadeira e caminhar, pelo menos na hora do almoço. Reclamam do calor, do frio, da chuva... Tudo é motivo para o sujeito se aboletar no seu auto e deixar de queimar pelo menos alguns gramas de gordura trans. Sem contar o rodízio paulistano, que é motivo para que muitas pessoas deem um jeito de alterar toda a rotina do dia da semana em que há restrição para o uso do seu automóvel. Ficou muito comum escutar as pessoas falando que não podem fazer tal coisa tal dia porque é o dia do rodízio. Ou seja, tudo em função do carro. A vida em função do carro.

Isso tudo, voltando ao início do deste post, sem falar nos enormes índices de CO2 lançados na atmosfera todos os dias pelos milhares de veículos que insistem em transitar, apesar de tantas adversidades e problemas que o tráfego pesadíssimo tem causado às cidades e às pessoas.

O fato é que vivemos, isto sim, apesar de tantos blablablás pretensamente conscientes e engajados, na era do automóvel. É em volta dele que a economia gira. É para ele que a maioria das obras são projetadas e, finalmente, é para conseguir alcançá-lo, que a maioria do povo trabalha. E haja propaganda de lançamento de veículos! Em uma delas até já estão fazendo a pergunta (Muito pertinente por sinal): Mas para que um carro tão possante se há tanto trânsito nas grandes cidades? E a resposta: Porque uma hora o semáforo abre! (Só não sabemos se mesmo com ele aberto vai ser possível andar, mas tudo bem...)

Falam tanto da poluição causada pelo tráfego, do iminente fim das fontes de petróleo, mas jamais cogitam em tirar o automóvel do centro das atenções do nosso mundo cada vez mais globalizado.

É de se perguntar: Será que só sabemos viver individualmente sobre quatro rodas? Será que não existem outras boas e dignas opções de transporte? Seríamos nós realmente animais motorizados?
Estaríamos todos condenados a viver todos os dias as agruras e sofrimentos causados pelo desumano e insuportável trânsito das grandes cidades?

Não sei as respostas para todas essas perguntas, mas, além da começar a fazê-las, acho sinceramente que é papel de nós todos tentar também respondê-las. Eu estou sem carro há anos. Utilizo transporte público todos os dias e caminho bastante para fazer minhas coisas cotidianas. Até o momento não fiquei doente nem enfrentei grandes problemas por causa dessa opção. Além do mais, nas cidades maiores, quando necessário, sempre há um táxi logo à mão para nos servir. Tudo é uma questão de adaptação e uso racional dos recursos e possibilidades disponíveis. Além de abandonar a maldita ideia de que o carro traz status e glamour para os seus proprietários. Foi-se o tempo. Hoje em dia qualquer um compra um carro zero em 96 prestações e se encalacra todo para pagá-lo. Mas, mesmo assim, pode dizer e mostrar para todos que tem um carro.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Dos tempos do politicamente incorreto

Dependendo do ponto de vista, quinze anos podem não ser assim tanto tempo. Porém, para algumas coisas, tudo muda muito em quinze anos.
Nos idos de 94, o Rollinbund trabalhava em uma empresa municipal de São Paulo, mais especificamente naquela que cuida do trânsito dessa caótica cidade. O trânsito, já naquela década, era completamente enlouquecedor. De lá pra cá, só fez piorar sensivelmente.
Contudo, não são exatamente as atividades-fins daquela empresa que pretendo relembrar, até porque o nosso herói trabalhava num setor que poderia perfeitamente se enquadrar como atividade-meio, o famigerado Setor de Compras e Licitações.
Rollinbund foi alçado àquele Setor através de um concurso interno, no qual obteve o primeiro lugar sem grande esforço. Imagine só o nível dos outros cerca de quarenta candidatos. Muito sofrível, certamente.
Pois bem, classificado no certame, foi notificado de que começaria no Setor de Compras, atuando como comprador, já na próxima semana.
Ao chegar ao local de trabalho, percebeu, à primeira vista, que a sala mais se assemelhava a um hospício do que propriamente a um departamento ou seção.
Em tempos em que o politicamente correto ainda não tinha dominado todas as empresas e todos os ambientes corporativos, aquele setor poderia ser considerado como remanescente dos anos setenta, dada a precariedade, tanto de material humano, quanto de equipamentos, com que ali se trabalhava. Parecia que o lugar estava parado no tempo há pelo menos duas décadas. Só para que os leitores tenham uma ideia do atraso, os métodos de trabalho, se é que eram métodos, ainda incluíam o uso do praticamente extinto, já naquela altura, Telex. Havia duas máquinas de datilografia eletrônicas IBM, mas a maioria dos funcionários ainda martelava velhas Olivettis mecânicas. Aparelho de fax, apenas um, para dar conta das demandas de seis compradores e todas as cotações feitas por eles. Os preenchimentos dos formulários eram manuais, com carbono, uma verdadeira ode ao atraso e à antiguidade.
Mas, afora o atraso tecnológico, o que mais assustava era o comportamento politicamente incorreto dos funcionários. Cerca de quinze pessoas, a maioria sem noção ou preparo, que se amontoavam naquela sala, fazendo de suas mesas de trabalho os seus respectivos feudos, achando que mandavam nos seus exíguos territórios, sem se importar com os vizinhos que se espremiam por todos os lados, mantendo distâncias máximas de um metro uns dos outros, fosse na frente, do lado ou atrás. Uma verdadeira balbúrdia cotidiana.
E o pior não era isso. Em tempos de menos preocupação com a saúde o o bem-estar, a maioria das pessoas que ali trabalhavam era de fumantes inveterados. Verdadeiras chaminés.
Por outro lado, nos dias de calor, havia duas facções que praticamente se engalfinhavam pelo controle do único aparelho de ar condicionado que havia para todos. É claro que nunca existia unanimidade. Alguns queriam ligar o ar, enquanto outros achavam que a sala ficava fria demais. E era esse tormento o dia todo. Uns iam lá e ligavam. Outros, aproveitavam o descuido dos primeiros e desligavam. Quem ligou o ar? Quem desligou o ar?
Agora, imaginem a situação: Cerca de dez pessoas fumando e a sala com todas as janelas fechadas devido ao uso do ar condicionado. O recinto vivia empesteado. Até o Rollinbund, que nunca fumou, consumia pelo menos um maço por dia de Continental sem filtro nessa época.
Em certos momentos, ao entrar repentinamente na sala, parecia que estávamos entrando numa taberna ou num pub londrino. Ao abrir a porta, a nuvem se espalhava pelo lado de fora.
Mas isso ainda não era o auge da falta de noção. Pelo menos metade da sala consumia suas marmitas na própria mesa de trabalho. E os cardápios não eram exatamente os mais leves. Macarronada com muito queijo parmesão, sardinhas fritas, filés de pescada e feijoada eram pratos recorrentes. Imaginem o aroma do local em meio a tanto fumacê, tantos pratos condimentados e tanta gente junta.
Outro quesito complicado era o local do cafezinho. Por falta de jeito e traquejo, eles faziam de um arquivo de aço cinza o suporte para a bandeja do café, do chá e do açúcar (Adoçante? Nem pensar!). Como não eram muito jeitosos, derrubavam café e chá por todo lado e emporcalhavam tudo com açúcar. As laterais e a frente do arquivo ficavam impregnadas e grudentas daqueles respingos. Em algumas vezes podíamos ver o café escorrendo pelo aço daquele móvel e chegando até o chão. Era porcaria para todo lado.
Diante desse quadro dantesco, imaginem a produtividade e a eficiência daquele setor. Já dá para ter uma ideia de que nada funcionava muito bem, não?
Os formulários eram datilografados com erros absurdos de ortografia. Trabalhavam sem nenhuma atenção. Alguns pedidos de compra precisavam ser refeitos umas cinco vezes. Gritavam a plenos pulmões de um lado ao outro da sala, não dando a mínima para os outros colegas que muitas vezes estavam ao telefone, efetuando cotações de preços e contatos com fornecedores. Era a barbárie.
Com o tempo vieram os conceitos de qualidade total e a lei que proíbe fumar em prédios públicos. Chegaram os computadores e iniciou-se um processo de reciclagem dos funcionários. Hoje em dia, me informam os colegas que lá ficaram, o setor é dividido em estações de trabalho e ninguém pode fazer a refeição nas suas próprias mesas. Tudo ficou mais eficiente e organizado, mas muito longe de conservar a graça e a espontaneidade daqueles famigerados tempos.

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